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mentes carregando
 

Michele



 
 

MI - 47

Love is in the air
Por Michele Paiva

Ele me cantava o tempo inteiro, incansavelmente. No início eu até entendia, pois era carne nova no pedaço, nova mesmo, bem ao contrário das outras colegas da firma.

Levava tudo muito bem, achava aquele flerte idoso dele até meio engraçado, triste também, afinal o cara era casado, cheio de filhos, barrigudo e careca. Tinha pena, porque ele nunca iria conseguir nada comigo ou com qualquer outra contemporânea minha. Nem por dinheiro, já que ele não devia ter muito.

Só que um dia ele se declarou, com todas as letras. Eu pedi desculpas se me deixei ser mal interpretada, mas nunca teria nada com ele. Sua cara envelheceu mais uns 15 anos. Me deu mais pena. Usei então a desculpa de que não me envolvia com homens casados, pois a verdade ali não caberia; não trabalhando no mesmo ambiente. (Eu até gostaria de não me envolver com homens casados, esse era meu desejo, porém nos últimos dois anos tinha vestido a máscara da outra com muita propriedade e certo pesar.)

Ele aceitou resignado e fomos seguindo. Achei que ele se envergonharia e nunca mais tocaríamos no assunto, mas ele foi persistente. Não sabia mais o que fazer, pois falar com alguém daquele antro de decrepitude só iria suscitar mais inveja de meu recém completo quarto de século, além de expor um cara que tinha uma posição muito mais confortável que a minha dentro da empresa.

Tentei ser gentil, não adiantou; tentei me fazer de desentendida, não adiantou; tentei ser ausente, não adiantou. Fui direta e clara como nunca consigo ser: "olha, meu amigo, você já sabe o que penso sobre o que você me declarou; estamos num ambiente de trabalho, não me faça mais constrangida do que já me sinto nessa situação". Odeio essa objetividade que os homens precisam. Decididamente sutileza não é uma linguagem masculina. Achei que tinha resolvido.

Fugi dele o quanto pude. Até uma hora atrás, quando fui agarrada no banheiro feminino e tive o melhor sexo da minha vida.



Escrito por Michele e Kleber às 10h15
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Mi - 47

A maldição do bolo
Por Michele Paiva

Para David

Ela era uma mulher singular - até porque é uma invenção de idiotas dizer que mulher é tudo igual -, diria Almodóvar. Nós podemos ter alguma coisa afim, mas dizer que somos iguais beira a ignorância.

Célia não devia ter 40 anos ainda; loira, queimada de sol e com uma magreza anoréxica, não comia o dia inteiro, era extremamente irritada com tudo e todos e vivia imprimindo receitas dos mais variados sites gastronômicos, já que cozinhava muito bem e conquistou seu noivo pelo estômago. A gente achava que ela não agüentava e comia o que preparava, mas depois devia vomitar tudo para manter aquela esqualidez horrenda.

Seu noivado com César já durava doze anos e só não casaram ainda porque sua mãezinha estava à beira da morte e só restava isso acontecer para dar-se o enlace matrimonial. Um tanto mórbido e outro tanto prático.

Quando eles resolveram conversar a sério sobre a possibilidade do casamento ocorrer, algo terrível aconteceu. O jantar que ela preparou foi incrível, mas o bolo solou, o que fez ela, aos prantos, terminar o noivado, porque o sinal foi muito claro: nem com fermento aquilo iria crescer. Pena que ela só percebeu mais de uma década depois.

 



Escrito por Michele e Kleber às 15h56
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Mi - 46

Por Michele Paiva

Revolta desencadeada após leitura de uma matéria jornalística sobre a "originalidade" do filme nacional "Entre lençóis" por Daniela Murat

Engraçado... Não tenho nada a ver com a indústria do cinema mas confesso que a sensação que me invadiu no momento em que assisti ao trailer, foi a raiva. Achei a falta de criatividade tão imensa que pra mim chega a ser absurda a idéia de filmarem essa merda. Acho que fiquei com raiva porque ao me identificar, ou melhor, não me identificar com o diretor/produtor/roteirista, sei lá que porra de profissionais, percebi que jamais faria uma imitação de leve quanto mais uma xerox. Era mais fácil eu mudar meu filme se eu achasse que ele talvez pudesse parecer remotamente semelhante com algum existente... Acho a originalidade fantástica!

E o cara ainda tem a vulgaridade de dizer que já tinha feito outro igual antes desse do Brasil, e como se não bastasse ele ainda vai continuar essa baixaria pelo mundo!!! Eu não acredito! Esse cara só sabe fazer isso na vida? Ou é só pra me irritar?! Se eu pego esse infeliz na rua acho que soco a cara dele.

Caraca, que revolta! Será que eu penso isso tudo mesmo ou é só porque tô com fome?

 



Escrito por Michele e Kleber às 12h41
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Mi - 45

Por Michele Paiva

 

Outro dia, conversando com um colega de trabalho, desses que a gente não explica a empatia imediata, tocamos num assunto que me deu um nó na garganta que está durando até hoje... Ele me disse que queria acabar o casamento, me falou de uma nova paixão e tudo - paixão intocada por causa dos valores que ele ainda mantinha -, mas que por conta de grana e, principalmente, do filhinho ia continuar e abrir mão de sua felicidade.

O nó na garganta não terminou porque acabei percebendo tanta gente assim, tanta gente que não entendeu ainda que a gente só tem uma vida e que precisamos ser felizes nela. E temos muito pouco tempo para isso.

Não, não vou começar com papinho auto-ajuda (espero que vocês ainda lembrem quem sou apesar de tanto tempo sem postar), mas não me saiu da cabeça como deve ser triste levar uma vida a dois desse jeito. Triste mesmo. Porque duvido que o outro seja feliz também e aí é muita tristeza junta. Muita. Que deve sufocar o filho poupado e qualquer ser humano que passe por ai... Acho que o síndico e o porteiro devem comentar que está difícil passar pelo apartamento do Fulano do quinto andar, porque a tristeza ali é tanta que anda saindo por baixo da porta, por qualquer fresta que a caixa de morar tenha.

Queria tanto que todo mundo tivesse maior responsabilidade por si mesmo e não pelos outros. Até porque dor passa. Todo mundo sabe disso. E tenho achado a vida tão morna ultimamente. Queria incendiar tudo.

 



Escrito por Michele e Kleber às 15h15
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Mi - 44

Se não gostou, me pega!

Por Michele Paiva

Eu sou mutissíssimo possessiva. Muito. E principalmente com coisas que não são minhas.

Eu sei que sou louca, mas sou e pronto. Não preciso fazer terapia por conta disso.

Odiava quando estava na faculdade e havia algum evento externo. Tipo, enchia MINHA faculdade de gente que não era de lá...Isso me dava uma raivinha escrota.

Odeio ver gente com a mesma roupa que eu, amando os mesmos autores que amo, se achando íntima de coisas, lugares, personalidades que são minhas.

Fico imaginando os habitantes de cidades como Paris, Roma e etc...Cara, todo o mundo quer visitar e a cidade está cheia o tempo inteiro. Deve ser terrível. Eu moro numa cidade que é alvo do turismo mundial também, mas nada comparável à Europa.E nem é xenofobia, não. É "possessividade" mesmo.

Mas nada se compara às pessoas que enlouquecem ao meu lado quando meu cantor favorito está em cena. Principalmente quando eu as conheço.

Já não faço a linha tiete histérica, porque além de ser patético, não vou dar esse mole, mas ter alguém do lado assim é triste. E revoltante.

Por mim, ninguém nem gostava dele, e o show seria só meu, mas acho que isso não ia ser bom para sua carreira, então abro precedentes. Mas é muito ruim, porque tenho vontade de matar a pessoa, de verdade. Juro, é a única hora em que meu instinto assassino vem à tona de verdade, me dá medo até. Sinto todo o meu sangue ir para o meu rosto, minha garganta se prepara para um grito alucinante e minhas mãos procuram um objeto perfuro-cortante, mas eu tento abstrair e segurar toda esta raiva para mim. Às vezes, eu consigo.

É amor. Eu sou assim e não tenho grandes problemas com isso; sem culpa alguma pela insanidade revelada . Se não gostou, me pega.



Escrito por Michele e Kleber às 03h07
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Mi - 43

Entre balas e frituras

Por Michele Paiva

Eu não tenho escrito com tanta freqüência aqui, sei disso, mea culpa. Mas outro dia tentei escrever sobre um assunto que me aflige deveras ultimamente: dieta. A dificuldade de fazê-la, de mantê-la e etc. O texto ficou uma merda, mas serviu para eu me dar conta de certas coisas.

Estou num emprego novo. Apesar de eu já estar aqui há 3 semanas e o trabalho de verdade não ter começado de vez, tá bem legal. É uma empresa gigante e parecem ser bem certinhos nos quesitos práticos de pagamentos e coisas que o valham, porém agora trabalho numa área de risco. Super de risco, eu diria.

Meu chefe tinha falado uma coisa que não tinha conseguido captar - e fingi que entendi, como faço com milhares de outras coisas que não ouço direito - sobre parecer um filme sendo produzido aos nossos olhos quando coisas bizarras acontecem aqui na frente do prédio. Até que um dia... Indo para casa, de ônibus, encaro uma ação cinematográfica de um assalto a um carro à mão armada e tudo. Um terror. Um medo danado e uma gritaria no ônibus de fazer a gente enlouquecer um pouco mais.

Além desses fatos corriqueiros por aqui, tem outra coisa que está na nossa cara o tempo inteiro por aqui. Comida. Junkie food. Para todos os lugares que olhamos tem alguma barraquinha vendendo alguma coisa que engorda pelo simples fato de direcionarmos nosso olhar a ela. É assustador e quase impossível permanecer na dieta.

No caminho para o metrô tem uma rua que já apelidei de corredor gastronômico do bairro. Ninguém tem noção de como fica o point na sexta-feira à noite. E o cheiro das iguarias, então?! Dá vontade de trazer meus amigos glutões como eu para apreciar as barraquinhas de batatas chips (feitas na hora), sanduíches para todos os gostos (todos bem engordurados), salgadinhos com refresco a R$1,00 (com um aspecto lindo, eu juro), cocadas, quebra-queixo, pizzas e mais todas as guloseimas que vocês puderem imaginar. Mas apenas as que engordam. E muito.

É realmente tãaao diferente da atmosfera fitness da zona sul que chega a ser engraçado. Diante de todos os Konis e Delírios Tropicais que encaro em meio às H. Stern Home da Garcia D'Ávila e todas aquelas pessoas e comidas de plástico, devo confessar que se não fossem as balas (as que matam), me sentiria muito mais a vontade na grande favela que se tornou o subúrbio carioca.



Escrito por Michele e Kleber às 13h02
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Mi - 42

PÍLULAS DO SALÃO DO LIVRO DO MAM

Por Michele Paiva

Nas duas últimas semanas fiquei absolutamente envolvida com o salão do livro infanto-juvenil, no MAM. Do tipo de sair de lá e dormir antes das 21h, porque me encontrava totalmente sem energia para nada...

Além de cansativo pacas, me diverti deveras... Tanto com meus colegas de trabalho quanto com as pérolas que ouvia (e interagia) das crianças.

- De um menino de aproximadamente 5 anos, lendo em voz alta no meu estande:

Eu - Nossa, João (seu nome estava num crachá, pendurado na camiseta da escola), você lê muito bem.

João - Eu sei, tia, minha mãe me ajuda.

E - E ela deve ficar orgulhosa...Agora é você quem conta historinhas para ela dormir, né?!

J - Não, tia, minha mãe trabalha de noite, bem de noite, depois do Jornal da Globo. Minha mãe é massagista, tia.

- Um menino loirinho foi reclamar, choramingando, com o amiguinho que outro colega o tinha empurrado e ele deu um soco na barriga para se defender. Todos por volta de 4 anos de idade.

Menino loirinho - Snif, snif, bati mesmo nele...

Amiguinho - Cara, você está errado também. Os dois são culpados. Olha pra mim, olha nos meus olhos e admite que você também errou. (SIC)

Menino loirinho - Não...snif...

Amiguinho - Vai lá conversar com ele. Vocês têm de superar essa briga. (SIC)

- Uma garotinha (de uns 6 anos) chegou para meu colega de estande e se apresentou:

- Oi, tio, sou a Ana Luíza.

E o Léo, muito simpático:

- Oi, Ana Luíza, meu nome é Leonardo.

- Então, tchau. Prazer, Péo. (SIC)

- Outra mais velha e mais assanhada, no alto dos seus 8 anos:

- Ai, tio, com todo o respeito, mas o senhor é um gatinho, hein?!

- É, você também é muito bonitinha, mas vai logo que sua professora está chamando, vai!

- Um menininho se soltou da mãe, correndo livre nos corredores até me ver, parar e dizer em tom professoral:

- As lagartas entram no casulo e viram borboletas depois, sabia?!

Não deu nem tempo de responder ou travar um diálogo. Ele já havia cumprido sua missão de me informar sobre assunto tão importante. Continuou correndo, tendo sua mãe enlouquecida atrás.



Escrito por Michele e Kleber às 11h19
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Mi - 41

Por Michele Paiva

Quando eu era adolescente dizia que o dia que meu peito caísse eu morreria. Bem, estou viva ainda.
 
Eu sempre fui de dizer muitas asneiras.

Já disse que nunca faria coisas que hoje vivo fazendo.

E sempre coloquei minha felicidade dependente de alguma coisa. E nunca me dei bem com isso. Mas é difícil aprender que a felicidade é um estado absolutamente egoísta e que só depende da gente, enfim...

Hoje trabalho com adolescentes e tenho vontade de trucidar a maioria. Está certo que adoro muitos deles, mas tem uns que dá vontade de matar mesmo. E nem adianta eu me esforçar para lembrar de mim nesta idade, porque não rola.

Como eles se sentem tão superiores - quando estão em grupo, obviamente - e têm tanta certeza de tudo e são tão pedantes...Meu Deus, só rezo para que eles, um dia, se achem ridículos como eu o faço hoje, porque o pior será eles continuarem assim para sempre - idiotas.

Mas me desliguei dos aborrecentes essa semana. Os fofos ficaram muito sentidos, deu até vontade de chorar, mas olha que legal, eles me conheceram! E a gente conversou sobre tantos assuntos batidos, mas com tanta verdade, sem eles acharem que ia pegar mal, que acho que alguma coisa valeu a pena. Para mim, principalmente.



Escrito por Michele e Kleber às 10h32
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Mi - 40

Por Michele Paiva

Esse texto era para expurgar toda a tristeza que ando sentindo. A tristeza que cheguei a pensar que estava ressaltada pela TPM durante a morte inesperada de alguém querido e um tanto distante, a morte brutal que ele escolheu, mas não...

Nunca lidei bem com a morte e invejo muito quem consegue seguir em frente de forma simples e por isso fico por muito tempo com a sensibilidade à flor da pele, o choro sempre iminente e começo a repensar tanta coisa.

Eu nem tenho sobre o que escrever concretamente, era só para ajudar minha cabeça, o aperto no meu peito - que já melhorou muito - os pensamentos errados, a saudade quase táctil dos meus amigos, dos meus queridos. Mas só Chronos tem poder nessas horas e tenho rezado muito para ele continuar ao meu lado e rezado para outros deuses que ajudem a quem partiu.

É incrível o estrago que uma ausência pode fazer.



Escrito por Michele e Kleber às 13h12
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Mi - 39

Sou feia, mas tô na moda!

Por Michele Paiva

Eu sou feia. Sempre fui. E isso sempre foi problema, obviamente. Só deixa de ser problema quando você se casa e se enche de filhos, porque depois disso você perde a identidade e a importância em nossa sociedade da futilidade. Meu primeiro beijo saiu tarde por causa disso, minha primeira trepada também e meu primeiro amor não chegou até hoje.

Tenho um nível de inteligência bastante razoável, sou considerada uma intelectual, mas o que me deixaria feliz mesmo era um corpo de gostosona, cabelão loiro e liso e cérebro menor que o de um amendoim, porque a ignorância, meu bem, é muito melhor que prozac.

Mas há pouco descobri uma coisa que pode parecer muito bizarra para as pessoas em geral, mas para mim foi o ápice de minha vida social: micaretas.

Para quem não sabe - sim, porque eu não sabia - micareta é o nome do carnaval fora de época que acontece pelo Brasil. E também o que rege minha vida, porque não marco compromisso algum antes de consultar o calendário dos desbundes carnavalescos onde pretendo ir. E vou quase a todos.

Mas o que interessa mesmo nesses trios elétricos que sigo são as apostas que os rapazes freqüentadores tornaram moda: apostas de quem "pega" mais mulher feia. Não sei o que eles ganham - devem achar que garantem seu espaço no céu - mas o que importa é que eu me divirto... Eles acham que estão usando a gente e somos nós - falo por todas as feias que caem nessa brincadeira - que nos divertimos de verdade. Até porque alguém já viu os saradões que freqüentam esses antros de perdição? Uns deuses. Sem nada na cabeça, o que me agrada ainda mais.

Outro dia eu vi um desses semi-deuses dizendo a um amigo do Olimpo que tava com nojo... Que ia comprar um anti-séptico bucal quando estivesse voltando para a pousada, porque naquele dia ele tinha ultrapassado todos os limites da feiúra feminina e eu fiquei me perguntando o porquê de ainda não terem inventado Listerine para o cérebro...



Escrito por Michele e Kleber às 21h12
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Mi - 38

IRONIA

Por Michele Paiva

 

Era piloto de helicópteros e conhecia como ninguém a cidade vista lá de cima. Quando chegava aqui embaixo, não conseguia acertar um caminho.

 

Demorou muito a fazer um plano de saúde. Quando conseguiu dinheiro, morreu antes do agente de seguros tocar sua campainha.

 

Era amigo de todo mundo, mas não recebia um telefonema em seu aniversário.

 

Tinha uma dor de dente terrível. Não quis conversa, arrancou tudo. E a dor só piorou.

 

Seu namorado vinha de longe e ela mentia para a mãe, dizendo que ele dormiria na sala. A casa incendiou e os corpos carbonizaram abraçadinhos no quarto.

 

Não havia quase lixeiras nas ruas do subúrbio. Na zona sul, eram depredadas a cada poste.

 

Ela teve tempo apenas de ler o título do tópico na apostila. Caiu uma questão na prova valendo muitos pontos justamente sobre ele.

 

Tinha uma queda por homens muito mais novos. Até que sua amiga a denunciou por não querer ser sua sogra.

 

Detestava crianças. Teve três filhos lindos e bem educados.

 

Cuidava muito para não ser chata e inconveniente e nem sonhava que era isso que falavam dela pelas costas.

 

Amava muito sua garota que o amava, mas era tão burro, que não soube lidar com isso e terminou tudo.

 

Pegava todas as lembrancinhas de festa e, em casa, jogava todas fora.

 

Era um aluno brilhante e invejado na infância. Outro dia apareceu no jornal local com uma tarja preta nos olhos, porque virou menino de rua.

 

Amava escrever, mas descobriram seus segredos mais profundos, lendo seus escritos.



Escrito por Michele e Kleber às 11h58
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Mi - 37

Crônica

Por MIchele Paiva

Eu perdi o direito de achar alguém escroto. Perdi, porque tive a infelicidade de namorar um escroto e o azar de gostar dele. Logo, ninguém mais me concede o direito de achar outro homem escroto.

Engraçado, porque ninguém, na lógica universal, teria tal direito, porque o que mais existe no mundo é gente escrota. Se não for, em algum momento esteve escroto, então...

Mas o fato é que foi em mim que recaiu a maldição de não poder julgar nenhuma atitude babaca ou dar conselhos por atitudes imbecis de alguém. Acho que me retaliariam se eu dissesse que um idiota diagnosticado é um idiota.

Vou fazer o jogo do contente e achar ótimo, pois não vou precisar dar mais minha opinião para ninguém ou, se mesmo assim pedirem, vou ter uma resposta padrão, do tipo: – É assim, mesmo... Respostas lacônicas e frases feitas tomarão conta de meu cérebro enquanto ele fervilha de xingamentos e depreciações em geral.

Pronto! Tudo tem seu lado positivo.



Escrito por Michele e Kleber às 17h57
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Mi - 36

CRÔNICA

Por Michele Paiva

Ontem eu li uma coisa e já estou pondo em prática. Eu não faço isso sempre, mas como me identifiquei muito com a frase-coisa em questão: "Nunca recusar um frila", para quem, basicamente, vive de freelas. Meu caso.

E hoje estou aqui, cobrindo férias de uma amiga, numa agência de publicidade, revisando as dúvidas de Língua Portuguesa que você, por serem tão banais, nunca julgou que um ser humano adulto e graduado na área de humanas pudesse ter.

Todo mundo se conhece, o clima é mega agradável e eu simplesmente não me encaixo. Para piorar, eu não tenho lugar certo, me colocaram na frente de uma máquina que não funciona e eu já terminei o Cuenca que está em minha bolsa. Arrumo coisas para fazer, enquanto cinco pessoas trabalham freneticamente ao meu lado.

Muito desagradável. Muito!

Torço muito para alguém sair mais cedo, mas já ouvi dizerem, com pesar, que vão precisar sair às 19:00... Como saio às 19:30, não me divertirei muito com uma máquina que funcione. Uma pena!

Sigo fazendo cara de paisagem, limpando minha carteira e implorando para que Chronos fique ao meu lado.

PS: Ah, a cadeira que me coube também é uma BOSTA!



Escrito por Michele e Kleber às 11h53
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Mi - 35

DIA DOS CASAIS

Por Michele Paiva

 

Acho enfadonho essas datas comemorativas. Eu sempre falo mal delas por aqui, mas eu realmente detesto todas elas.

Eu gosto de ganhar presentes, chocolates, felicitações, mas não consigo entender o porquê ter de ser em datas pré-determinadas. Quer dizer, até entendo, mas não me agrada.

Hoje, por exemplo, dia dos namorados. Eu acho chatíssimo. para quem tem e para quem não tem seu par.

Hoje os restaurantes vão estar lotados, os motéis com fila e um bando de homens com cara de poucos amigos porque não gostam de enfrentar essas coisas, mas as mulheres (desculpem-me, amigas, mas somos muito chatas nesses assuntos) fazem questão.

Quem está solteiro vai fazer cara de paisagem e dizer que nem liga (eu sempre faço isso) e nem deve ligar mesmo...e sorte que esse ano caiu numa terça-feira, porque se fosse em final de semana ia ser mais que insuportável.

Tá, tem o lado bom. Ganhar livros, bombons ou flores é legal em qualquer dia, né?! Não ia reclamar ganhando hoje. Então... obrigada pelo livro lindo, os beijos deliciosos, os olhares sinceros e todos os plano para hoje à noite, mas vamos ficar por aqui mesmo?! Adoro ver você cozinhando!



Escrito por Michele e Kleber às 11h21
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Mi - 34

JOBLESS

Por Michele Paiva

Eu, um cara tão legal, vou ser demitido. Legal e competente, muito embora eles queiram me provar o contrário. Porque eles querem que eu saia me desculpando, mas não me conhecem, coitados! É mais fácil sair cuspindo o chão que eles pisam.

O pior é que oficialmente ainda não sei de nada. Descobri quase sem querer, num palpite, e depois as peças foram se juntando e...agora é fato. Fato que também fodam-se. Todos eles, um por um. Mas odeio a cara dos que já sabem, quando olham para mim. Cara de pena de alguns. Cara de: coitado, nunca mais vai conseguir emprego. Cara de: incompetente, bem feito, nunca fui com sua cara mesmo e etc.

E eu com aquela cara de bom moço, fingindo não saber de nada. É ótimo! Estou colocando meu curso de teatro, feito na sexta série, aflorar de novo. Realmente, muito didático esse final de ciclo nessa empresinha filial do butantã.

Mexendo com tantas planilhas e egos alheios me deu vontade de me mudar pro interior e viver de economia de subsistência e nunca mais ver caras humanas de novo. Não tô mais nessa idade, já passei dos 30 há tempos e ainda tenho de lidar com a infantilidade emocional das pessoas. Ô, mundinho corporativista mais besta!



Escrito por Michele e Kleber às 10h55
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