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Manuela



 
 

Manu - 34

Tardes de segunda
Por Manuela Musitano

Eu bem que gostaria de ter conversas francas com a minha mãe, do tipo: por que você achou que o colégio interno seria a melhor opção?

Nossa vida sempre foi bem atribulada. Mas acredito que seja normal, quando você tem uma mãe que é jornalista política, bem sucedida e que gosta daquilo que faz. Eu e meu irmão sempre fomos atrás dela e atrás de onde a empresa líder de audiência mandava ela. Era mais fácil ligar a televisão e ver a mulher do que encontrar com ela na hora do jantar, por exemplo. Principalmente depois da matrícula no colégio interno.

Acho importante dizer que eu não sou filha do mesmo pai que o meu irmão mais velho e que minha mãe também não é casada com ele. Quando eu tinha ainda 7 anos e meu irmão 15, ela se casava pela terceira vez com um estudioso de História. Ok, depois de um hippie comunista e de um executivo, ela resolveu casar com esse cidadão. Não que ele fosse um pai ruim pra gente, mas quando eu fui expulsa do colégio interno e tive que escolher entre morar com minha vó ou com meu pai, fugi do ônibus na rodoviária e fui pro Rio de Janeiro atrás do pai hippie do meu irmão. Que diga-se de passagem também não me acolheu tão bem assim, repetindo a frase constantemente: eu prometi que nunca mais falava com a sua mãe na minha vida!

Eu gostaria de ter sentado com minha mãe um dia e conversado com ela e saber como era ela sem o papel de mãe que ela tanto renegou. Pra mim, porque do meu irmão ela é mãe até hoje. Devo comunicá-los que não falo com ela desde minhas últimas férias de verão, quando ainda era obrigada a conviver com ela em curtos períodos de tempo. Ah, sim, com meu pai biológico também não falo, devido à minha decisão de ir para a casa do hippie. Ok, devo avisar também que meu irmão não fala com o pai hippie, porque o hippie resolveu ser mais meu pai do que dele. Se eu ainda falasse com meus pais, eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Porque na boa, ela achou que eu com 16 anos não iria transar com o professor de Biologia durante a minha suspensão do colégio interno? E ainda me culpou de ter sido expulsa e eu agradecer a ela ser responsável pela não publicação da notícia nos maiores jornais de Brasília...

Eu tava cagando, pedindo pelo amor de Deus para alguém me tirar daquele colégio e daquele lugar. Pedindo pelo amor de Deus para um hippie carioca me acolher no seu apartamento de dois quartos de frente pra praia de Ipanema. Além de tudo, meu pai tem que entender que eu fui atrás de um pai que ele nunca pôde ter sido, nem pra mim, nem para os outros filhos que ele teve antes e depois.

Eu só gostaria que as pessoas entendessem que a vida é feita de opções e que não podemos julgar e prolongar o sofrimento de alguém que escolheu o próprio destino com seus pouco mais de 16 anos. Não que eu quisesse que eles me perdoassem, porque eu não acho que tenha o que perdoar, mas o mínimo de compreensão e uma resposta de vez em quando na minha caixa de entrada...

 

 



Escrito por Michele e Kleber às 13h08
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Manu - 33

De novo, again and again
Por Manuela Musitano

Meu Deus, é quase um dejá-vu. Sentada aqui nesse ônibus, no mesmo engarrafamento de sempre no aterro, escutando Sandy e Jr no Ipod. Não agüento mais esse Turu turu turu no meu ouvido. O problema é que também não aguento mais os cds do NX Zero, do Charlie Brown e aquele novo da Vanessa da Mata.

A vida é sempre igual pra você também? Não, não tô falando de rotina, porque isso até algumas pessoas gostam, mas da sua vida mudar somente de ciclo em ciclo? Comigo é muito assim e principalmente amorosamente. Putz, mas é muito assim mesmo. Arranjo alguém só pra transar, termino, dois dias depois me arranjam um namoro. Não que eu ache isso ruim, pelo contrário, até quando o namoro termina, eu já quero achar alguém pra transar pra arranjar outro namorado. É tão bom namorar, eu adoro. Esperar o fim de semana chegar pra gente ter realmente o que fazer com a pessoa q a gente realmente gosta, sem sair pra ficar em baladinha com aqueles seus amigos de sempre. E cada vez que o tempo passa, é mais assim, da gente não querer ver as pessoas de gente, nos mesmos lugares que você sabe que elas vão estar, porque elas nunca têm dinheiro, mas também não podem passar um fim de semana em casa, comendo um pizza, vendo novela.

Enfim, as pessoas são complicadas e esse trânsito que não anda. Você fica olhando pros carros do lado e vendo o que as pessoas estão fazendo? Nossa, é minha distração. Tentar adivinhar o que está se passando ali dentro, nossa, que engraçado.

Tô doida pra chegar logo no trabalho e pra sair logo também. Ás vezes tenho a impressão que a vida se resumiu a isso: trabalho-dinheiro-trabalho. Isso quando o dinheiro aparece, porque está cada vez mais difícil guardar pra viagem à França. Não posso perder mais tempo, preciso descer desse ônibus e viver. Moço pode parar aqui mesmo que eu vou ficar aqui! Ah, mas não em frente a essa poça d'água... Pode seguir um pouco mais adiante...

 



Escrito por Michele e Kleber às 19h41
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Manu - 32

Minha vida com Ludmila 2

Por Manuela Musitano

Ludmila agora resolveu matar as aulas da faculdade. Semana passada eu desconfio que ela só foi na aula de quinta-feira, porque tinha combinado de ir jantar no restaurante japonês com a Jussara, uma amiga dela desde os tempos de antes da faculdade.

E lá foi Ludmila matar o segundo tempo de aula de quinta-feira, a primeira aula que ela tinha ido na semana.

Ludmila agora está com mania também de levar o namorado nas nossas aulas de Globalização. Quando questionado, ele me disse que não tinha gostado muito da aula, mas que continuaria indo porque não tinha mais nada pra fazer naquele horário. Questionei então à Ludmila, se aquilo era normal, porque sinceramente, se eu não tivesse nada pra fazer naquele horário, iria pra casa ver a minha televisão. Ludmila disse que aquilo era normal, que ele era muito NERD. Que quando eles moraram no EUA, ele ia a biblioteca consultar livros comunistas e ela teve muito medo de ser expulsa da terra de Mr. Mouse por conta disso.

Hoje eu disse a ela que amanhã trabalharei em casa, como ela fez certo dia já relatado aqui por mim. Ela disse então que eu estava muito competitiva, só que mais competitiva é ela, que usa a minha frase-tema de quando quero sacaneá-la. Combinei também de ir com ela a Itaipava fazer umas comprinhas, pois estou bem precisada e sem grana, apesar de ter pago 49,90 numa blusa linda na Renner e mais 30 e poucos numa calcinha e num sutiã que não vou usar com ninguém tão cedo. Não que eu esteja em greve de sexo de novo, mas é que eu ando bem assexuada, com o espírito elevado, sem pensar muito nessas coisas mundanas.

Já volto, vou responder à Ludmila que tá me chamando aqui no MSN e eu já sei, que se eu demoro mais um pouco a responder, ela fica me sacaneando, perguntando se eu estou trabalhando. Que pergunta retórica, como se ela já não soubesse...



Escrito por Michele e Kleber às 20h15
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Manu - 31

Minha vida com Ludmila

Por Manuela Musitano

Ontem Ludmila foi à aula apenas para pegar documentos com a colega que trabalha na Caixa Econômica e estava adiantando uma consulta que Ludmila precisava fazer para tirar sua carteira de trabalho. Aliás, isto está um parto, ela tenta tirar outra carteira desde o início do mês, mas como trabalha em Botafogo e quer ir no posto da Tijuca, por acreditar que lá seja mais fácil de tirar, acaba não indo nunca.

Ela chegou já no fim do intervalo e ficamos conversando durante o segundo tempo da aula da Lia. Nós já havíamos conversado a tarde inteira, no MSN, como de costume, mas sempre temos papo para mais uma meia hora ou duas. Teria sido mais inteligente de minha parte se eu tivesse pego meu material e ido embora logo com ela, do que as duas terem ficado sentadas esperando a aula acabar para eu entrar e pegar minhas coisas. Gabriela não foi à aula.

Entre vários assuntos, incluindo ela me ensinar a mexer num compartilhador de arquivos, ela me contou que tinham tido uma vez uma empregada alcoólatra, que certa vez teve um surto, porque Ludmila possuía um boneco de borracha que parecia um bebê recém nascido, com o qual a empregada levava sustos atrás do outro. Neste dia, Ludmila ficou balançando o boneco na janela que dava para o quarto da empregada e a mulher desceu as escadas do prédio de uma vez só, sem nem sequer voltar para pegar o dinheiro que lhe cabia.

Ludmila disse, que certa vez ela fez um chá e colocou uma dose de álcool de limpeza. Brinquei dizendo que ela poderia colocar álcool de cereais. Nesta hora estávamos passando pela porta da sala de aula de gastronomia, já indo embora pra casa. Ela me contou de outras histórias de empregadas suas e me pareceu que eles nunca tiveram muita sorte com empregadas.

Escuto meu cd da Tereza Cristina e aguardo retorno de Ludmila no MSN, já que hoje ela está trabalhando em casa e não pode deixar no status "em reunião", como ela faz quando quer se livrar de mim...



Escrito por Michele e Kleber às 20h28
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Manu - 30

Por Manuela Musitano

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Antes apenas um ser bestial aos olhos do mundo, hoje um ateu dos céus que busca conforto e afeto pelos olhos do sacristão.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Porque se o mundo possui idiotas, um dia eles subirão à redenção garantida por suas bestialidades fugazes de pobres homens.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Se a hóstia é consagrada, foi porque alguém acreditou naquilo e espalhou sua crença ao mundo, que necessita cada vez mais de esperança.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Agora na fila de cumprimentos finais ao sacerdote, pensando em chegar em casa e bater na mulher, já que nada de bom foi-lhe apresentado hoje na Homilia.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que foi até lá pedir que seu time seja campeão ou que seja apenas retirado da segunda divisão.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Por não rezar diariamente e não cumprir seu dever de ovelha de Deus, acha que sofreu um castigo não passando no concurso que se empenhou tanto.

Reza o home pequenino que se engrandece na fé. Que reza diariamente, que segue seus deveres de ovelha e que já comprou seu pedacinho no céu.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que na verdade nem está rezando mesmo, não acredita nessa tradição toda, mas que é muito melhor que muita gente que só vai lá pedir.



Escrito por Michele e Kleber às 10h42
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Manu - 29

FESTA DE ANIVERSÁRIO

Por Manuela Musitano

Cara, que mania de comemorar aniversário que ela tem. Já não sabe que não tem dinheiro pra fazer essas coisas? Aí o que que acontece? Faz aquela despesa, fica abril, maio e junho pagando pratinho de plástico e colher de sobremesa e aquele bolo cafona da Moranguinho que ela pede há não sei quantos anos, sendo que a menina já vai fazer 18...

Ela ainda não aprendeu? Meu Deus do céu! Aí a gente é obrigada a levar um presente bom pra criança porque a festa é boca livre e eu fico me perguntando: não é melhor dá um dinheiro pra ajudar a pagar as parcelas?



Escrito por Michele e Kleber às 11h03
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Manu - 28

Por Manuela Musitano

Eu não acho justo ter acontecido isso tudo com a gente, mas o que que eu vou fazer, não é?! Eu sei que você vai dizer que eu fiz as minhas escolhas e que a vida é feita de opções, não é sempre isso que você fala?

Mas será que eu escolhi em alguma malcriação com você ir morar naquele colégio interno chatérrimo em Brasília? Quando você foi transferida pra lá, eu fui numa boa. Fiz a minha mala, embarquei junto com meu irmão e nem briguei com ele na viagem. Isso provavelmente ele nem te contou, né?! Normal.

Será que eu mereci ir morar longe de vocês porque eu reclamei do calor quando nós fomos à Disney em dezembro e você disse pra gente só levar roupa de frio e não quis comprar uma camiseta dos parques pra gente? Lembrando que eu nunca pedi pra ir pra esse lugar.

Aí você me manda para esse colégio interno, viaja nos finais de semana com o seu novo marido e me expulsa de casa porque eu transei com o professor de Biologia quando eu fiquei detida no colégio por mal comportamento? E ainda acha ruim eu escolher ir morar com o pai do meu irmão no Rio em vez de ir morar com o meu pai em São Paulo...

Você preferia que eu continuasse a encarar a cara de puto do meu pai ao ter que ir ao colégio com você para assinar a minha expulsão ou preferia que eu fosse morar num lugar que eu sempre quis morar, com um pai que não era o meu, mas me tratava muito melhor que todo mundo que assina o sobrenome Vargas Limeira?

Eu fiz minha escolha e sei que te prometi voltar pra casa depois da formatura na faculdade, mas eu também quero que você saiba que tem muito tempo que a gente não vive junto e que vai ser difícil pras duas agüentarem isso, mas eu te prometi e estou embalando a última caixa.

Não precisa me buscar no aeroporto, não, deixa que eu me viro, como eu sempre fiz e acho ótimo. Tomara que você continue se orgulhando de mim como eu de você, mesmo que a gente tenha que deixar algumas coisas guardadas bem lá no fundo do baú...



Escrito por Michele e Kleber às 08h44
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Manu - 27

LURDINHA SAMBA FÁCIL

Por Manuela Musitano

Geralmente pegava o metrô na mesma hora das meninas da whiskeria da rua do Rosário, que vinham ensaiando a Pole Dance nos queijos dos vagões. Não era a primeira vez que ia trabalhar virada. Na noite passada precisou ir para a quadra se apresentar como rainha da bateria da sua comunidade. Essa era a rotina de Lurdinha Samba-fácil sempre perto do Carnaval. Se cantaram alguma vez que o morro foi feito de samba, esqueceram de dizer que isso não sustentava os filhos que Lurdinha teve com o namorado. Orlando Oscar, um motoboy metido a besta, conhecido como Ó ao quadrado tinha engravidado sua preta quando ainda nem tinha carteira assinada.


Em noite de ensaio ninguém podia dormir no ponto. A Escola tem por tradição se reunir no meio da semana para evitar a invasão elitista que ocorre quando seus batuques são realizados nos finais de semana; com o objetivo de angariar fundos para pagar pelo menos os seguranças que ficam na porta para não ter confusão. Lurdinha Samba-Fácil tinha sido coroada há pouco na agremiação. Após a moda das artistas novelísticas assumirem a avenida, a Escola tinha decidido manter a dinastia das Sambas-fácil, fazendo assim uma homenagem à mãe de Lurdinha, a Berê Samba-fácil, que passou todo seu rebolado geneticamente para a filha e respectivamente à comunidade.


Lurdinha levantava todo dia às 5:30 para assumir o plantão da recepcionista do prédio onde funcionava o Jornal dos Jornais. Dali, saía correndo para pegar Lucas e Breno no horário extensivo da escola e os levava para almoçar no botequim do Pereira, onde ficava sabendo das últimas novidades do morro e de seu marido O². Mais dia menos dia, ela ia se cansar daquele homem, ia arranjar um emprego melhor, ou que apenas lhe desse um dinheiro melhor, e se mudaria do lugar onde tinha sido criada e criado seus filhos. Mas por enquanto, sua única preocupação era conservar os músculos inferiores que lhe garantiriam um chocalhar perfeito para conquistar o Estandarte de Ouro como rainha da bateria deste ano.



Escrito por Michele e Kleber às 13h19
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Manu - 26

Qualquer dia de manhã e tudo bem

Por Manuela Musitano

"Eu poderia estar matando, roubando ou fazendo cópia pirata de Tropa de Elite, mas estou aqui pedindo um minuto da sua atenção". Mais uma manhã começava com a ladaínha normal dos ambulantes móveis. Saco.

Ainda faltando uma pequena porcentagem do meu download de sobriedade ser completada, lembro-me que estou a dias com as contas no vermelho. Aguardando o cumprimento do aviso prévio, escuta quase que diariamente do chefe que há sempre uma esperança da empresa ser comprada por aquela multinacional concorrente e afirmo num uníssono que o banco também terá esperanças de um dia receber o que eu devo.

Enquanto o pequeno marginal recolhe seus pedidos em escrito por entre os passageiros, reparo que sou uma das únicas que ouço o som ambiente. Todos, absolutamente todos, incluindo o motorista, o trocador e, talvez, até o próprio pedinte, todos escutam o som que vem de fones de ouvido plugados em algum aparelho eletrônico.

Imagens desfocadas passeiam pela minha mente tentando fazer com que eu chegue até a última vez em que vi e utilizei meu IPOD. Uma corrida pela Lagoa, uma escapada da baia do trabalho, uma festa de aniversário. Será que eu tirei ele da caixa alguma vez? Sim, sim, sim, definitivamente foi ele o mal que me assombrou durante minhas poucas horas de serenidade no almoço de domingo na casa de papai.

Ele a me perguntar como aquilo funcionava, o caçula a me pedir o site de músicas grátis e mamãe a indagar como seus acordes orquestrais ocupariam o menu de pastas do pequeno compactador de sonhos. Eu a explicar, ninguém a me entender e o aparelho a marcar cada vez menos bateria no seu visor. E foi lá, naquela confusão de sentimentos que me esqueci de pegá-lo em cima da estante da sala quando me despedi de todos.

Na esperança de ainda ter meu IPOD intacto, volto no dia seguinte para encontrá-lo não mais onde tinha deixado, mas já conectado ao computador do ex-quarto que virou escritório. Na pressa de sair e me encontrar com Adolfinho, o metaleiro tesudo que mora no 5º andar e que pela primeira vez tinha me chamado para uma balada diferente, não pude conferir se aquele aparelho ainda respeitava meu gosto musical. Apenas me recordo que a pequena metonímia de tesão, ao me encontrar, o tirou da minha mão e o pôs imediatamente no ouvido. E foi assim que levei o segundo fora da minha vida. Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio.

Suicídio sexual com o Adolfinho, que deu uma desculpa qualquer ao parar o carro e me deixar na esquina com meu IPOD e minha libido na mão.



Escrito por Michele e Kleber às 12h32
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Manu - 25

Vou te contar

Por Manuela Musitano

Nunca fui tão católica como depois que eu transei com o Alfredo sem camisinha. Promessas feitas aos 365 santos que eu conheço, missa em Ação de Graças a não sei o que, pagamento de Dizimo... Hora rezando para não estar grávida e hora rezando para arranjar 2000 reais se a primeira reza não tivesse sido alcançada.

Alfredo, grande Alfredo. Rato de praia, surfista. Inaugurando o apartamento novo que minha mãe tinha alugado pra mim. Cama King Size, lençol do Shoptime; tudo isso pra dar tudo que eu tinha e mais um pouco debaixo do chuveiro elétrico do banheiro de empregada. Aquela água gelada, a gente se abraçando pra se esquentar, sabe como é, né?! Caiu pra dentro que nem sabonete escorregando da mão: o encaixe perfeito.

Viado!!! Me comeu e me largou sem um número de telefone. Trate de aparecer, pq eu não vou criar o filho de ninguém sozinha. E fique sabendo que o seu filho vai ser judeu!!!



Escrito por Michele e Kleber às 16h36
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Manu - 24

VITÓRIA 11 – O SARAU

Por Manuela Musitano

Precisou deitar no chão para esticar as costas. Não conseguiu estalá-las, mas foi relaxante apenas por estar naquela posição. Dormiu mal posicionada no sofá das sala a noite toda. Vânia deixou o apartamento de Vitória ontem, forçada por Ronaldo. Depois de alguns dias de convivência juvenil, bebendo, fumando e dançando em boates alternativas da Lapa, Vitória, cansada, implorou para que o ex viesse buscar a filha.

Ronaldo foi o pior marido de Vitória. Além de já ter uma filha, ele estava de mudança para São Paulo. Vitória odiava São Paulo. Vitória odiava Ronaldo. Vitória odiava sua vida no Rio. Aproveitou uma reforma geral no quarto e sala e se mudou para a cobertura recém habitada pelo namorado e a filha. A distração dela, nessa época, era participar das rodas de leitura da turma de Vânia em sua casa. Vibrou quando a professora de Literatura recomendou “Virgínia” para a classe. Paulista estuda em classe. Fora as jovens tardes do apartamento, Vitória odiava aquela experiência.

Apesar do nome forte, Ronaldo era um homem sensível. Vitória o considerava biba distraída; quando percebesse que era gay, assumia. Não trocava pneu de carro, nem lâmpada queimada em casa e nem cartucho vazio do computador novo das meninas. Ele escutava Tom Jobim. Nenhum problema em escutar Tom Jobim, mas ele escutava o tempo todo. No banho, no almoço, no sexo. Vitória agradecia a sorte de ter nascido mulher quando transava com Ronaldo. A voz de Tom era algo que não a excitava. Se fosse Chico ou Caetano, maravilhosos seres que Vitória conhecia pessoalmente, mas era sempre o maestro. Sempre Wave. Sempre os peixinhos rimando com os beijinhos.

Certa vez, Vânia caiu da escada do prédio e abriu a cabeça. Na hora de socorrê-la, Vitória foi a única que conseguiu chegar perto e acudi-la. Ronaldo vomitou na primeira gota de sangue que viu sair da cabeça da filha. Na sala de espera do hospital, Vitória tentava ler um livro tijolão do seu autor favorito. Ronaldo se aproximou e perguntou qual era o seu problema com ele. Vitória respondeu que esperava uma atitude mais de homem dele. Recebeu um tapa na cara e revidou jogando o tijolão literário no estômago do marido.

A partir de então, foi esperar Vânia se recuperar para se mudar de vez para o Rio. Não voltaria mais para aquele homem e nem para aquela família que não era a dela. Guardava um carinho pela primeira filha que teve, mas não guardava saudades daquela época que não amou Ronaldo.

Toda vez que o encontrava agora, lembrava de quando transaram e ela continuou a ler um livro. Esta foi a imagem na memória que Vitória rebuscou ao se despedir de Ronaldo e Vânia na porta de seu apartamento.



Escrito por Michele e Kleber às 08h54
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Manu - 23

Por Manuela Musitano

Desculpa ter brochado ontem, Karen. Mas é que quando eu vi a sua buceta, achei tão bonita, que me deu medo penetra-la. É que você é a primeira mulher que eu transo depois que eu terminei com o Glauco. Na verdade, você é a primeira mulher com quem eu transo na vida. Provavelmente você nunca mais vai querer me ver, porque mulher tem disso, acha que o cara brochou por causa da barriga, da celulite... E não é nada disso. Eu brochei porque achei a sua buceta perfeita demais.

Bem que eu quis remediar a situação metendo na sua bunda, porque cu é tudo igual, mas você não quis e eu entendo, porque dar o cu é uma situação de muita excitação e eu, como ex gay, reconheço que fui muito delicado com você. Prometo que nunca mais penso na sua bunda como uma possibilidade sexual, mas eu posso te pedir outra coisa? Faz um fiozinho terra pra eu gozar?



Escrito por Michele e Kleber às 09h41
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Manu - 22

Por Manuela Musitano

Durmo às 20:00 e acordo às 21:20 para ver a novela. E tudo é perfeito, como se você não tivesse rompido meu hímen naquela maldita noite chuvosa em que eu disse "eu te amo". E você continuou a enfiar seu pau duro em mim, me machucando e me mostrando um mundo que eu não queria conhecer. Não através da sua reles apresentação.

 

E você sorriu quando gozou e eu não me esqueço do seu rosto. Os óculos embaçados eram a única peça do vestuário que você usava. E eu me lembro o jeito que você me seduziu: "Tá, então traz o livro da tal Young pra gente ler". E você não acreditou em mim, que eu nunca tinha transado com outro garoto.

E você me levou em casa naquele dia. Me despedi ainda um pouco envergonhada de ter manchado o seu lençol, mesmo você me dizendo "relaxa". Aliás, você me disse isso o tempo todo. E eu obedeci, como nunca tinha te obedecido no trabalho.

 

Mas você nunca foi grato por aquele momento. Você preferiu ler com as outras e me deixar analfabeta de amor.

 



Escrito por Michele e Kleber às 00h48
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Manu - 21

Por Manuela Musitano

Querido diário, hoje, enfim, eu consegui matar a minha irmã. Demorou para ela parar de respirar, eu não agüentava mais segurar o travesseiro na cara dela. Foi um alívio. Eu achei que fosse me sentir culpada pela minha mãe, meu pai. Mas eu estou bem. Pela primeira vez na vida eu chorei de felicidade. Choro de raiva dá dor na garganta e agora eu não sentirei mais dor. Ela me machucava com as suas palavras e atitudes grosseiras. Se a justiça divina não falha, ela vai pro inferno, tenho certeza. E eu, eu já estou no céu desde que vi seu corpo mole repousado no caixão. É claro que eu não gostei de ver as pessoas chorarem por ela, porque esta vaca não merecia isso. Paro e penso qual seria o destino dela aqui. Me fazer uma assassina? Papel cumprido, baby. Agora eu gasto o pouco que tenho na reforma do seu quarto. Briguei muito para transformá-lo em escritório, porque minha mãe queria conservá-lo do jeito que você deixou, impecável. Mas meu amor, quem reina agora sou eu. Como a polícia é boba o suficiente de cair na minha lábia e não perceber minhas contradições sobre o dia do crime? Crime não, porque crime sempre está ligado a algo ruim. Dia da minha redenção. Meu Deus, uma mãe só minha, um computador só meu, um banheiro só meu. Nada poderia ser melhor que isso. Se você tem uma irmã, mate-a e verás que a felicidade pode estar numa poça de sangue.



Escrito por Michele e Kleber às 22h53
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Manu - 20

VITÓRIA 10

Por Manuela Musitano

Vitória tem uma preguiça interna que chama de depressão. Caracterizou-a assim para as pessoas entenderem que se trata de uma coisa séria e não insistirem em programações na companhia dela quando ela diz que está depressiva. Sempre foi assim. Quando pintava alguma coisa divertida com alguém legal, Vitória tinha medo de participar e se fosse, amanhecia no dia seguinte com alguma doença somatizada. Culpa é uma coisa que ela tem muito. Mas é uma culpa por agir erroneamente com terceiros. Não é uma culpa por não conseguir fazer as coisas que a façam feliz. Coisas simples como ir à farmácia, se pesar e constatar que está no peso ideal. Vitória não consegue fazer nada prazeroso na vida.

Acha que isso tudo começou depois que tomou verdades absolutas, inventadas por ela, como realidades. A verdade absoluta de "odeio crianças" foi criada em um papo informal com um pretendente. Após analisar toda a carga genética que seu descendente herdaria daquele companheiro, Vitória soltou, despretensiosamente, o ato falho que defende até hoje. A primeira crise de síndrome do pânico também foi desenvolvida a partir de uma dessas verdades impostas por Vitória a ela mesma. Não saía na rua se alguma coisa do seu mundinho perfeito desse errado. Uma simples batida da mão no Box, enquanto penteava o cabelo, já a deixava de cama naquele dia.

Vitória era uma pessoa muito suscetível. Bastou aparecer no jornal que um elevador despencou de um prédio e matou uma pessoa, para ela criar a mania do elevador. Toda vez que vai pegar um elevador, em qualquer lugar, segura a porta e dá uma pisada forte no elevador, deixando o outro pé do lado de fora. Quando, gentilmente, alguém fazia sinal para que ela entrasse primeiro, ela sempre ia para trás da pessoa e segurava a porta do elevador, para que o outro "testasse" a credibilidade das cordas que o seguravam.

Hoje ela acordou com uma grande preguiça interna. Mesmo com os inúmeros recados de Deca convidando-a para ir à sua casa, Vitória ainda estava em dúvida se devia se divertir naquele final de tarde nebuloso.



Escrito por Michele e Kleber às 08h03
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