Mi - 39
Sou feia, mas tô na moda! Por Michele Paiva Eu sou feia. Sempre fui. E isso sempre foi problema, obviamente. Só deixa de ser problema quando você se casa e se enche de filhos, porque depois disso você perde a identidade e a importância em nossa sociedade da futilidade. Meu primeiro beijo saiu tarde por causa disso, minha primeira trepada também e meu primeiro amor não chegou até hoje. Tenho um nível de inteligência bastante razoável, sou considerada uma intelectual, mas o que me deixaria feliz mesmo era um corpo de gostosona, cabelão loiro e liso e cérebro menor que o de um amendoim, porque a ignorância, meu bem, é muito melhor que prozac. Mas há pouco descobri uma coisa que pode parecer muito bizarra para as pessoas em geral, mas para mim foi o ápice de minha vida social: micaretas. Para quem não sabe - sim, porque eu não sabia - micareta é o nome do carnaval fora de época que acontece pelo Brasil. E também o que rege minha vida, porque não marco compromisso algum antes de consultar o calendário dos desbundes carnavalescos onde pretendo ir. E vou quase a todos. Mas o que interessa mesmo nesses trios elétricos que sigo são as apostas que os rapazes freqüentadores tornaram moda: apostas de quem "pega" mais mulher feia. Não sei o que eles ganham - devem achar que garantem seu espaço no céu - mas o que importa é que eu me divirto... Eles acham que estão usando a gente e somos nós - falo por todas as feias que caem nessa brincadeira - que nos divertimos de verdade. Até porque alguém já viu os saradões que freqüentam esses antros de perdição? Uns deuses. Sem nada na cabeça, o que me agrada ainda mais. Outro dia eu vi um desses semi-deuses dizendo a um amigo do Olimpo que tava com nojo... Que ia comprar um anti-séptico bucal quando estivesse voltando para a pousada, porque naquele dia ele tinha ultrapassado todos os limites da feiúra feminina e eu fiquei me perguntando o porquê de ainda não terem inventado Listerine para o cérebro...
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