Manu - 27
LURDINHA SAMBA FÁCIL
Por Manuela Musitano
Geralmente pegava o metrô na mesma hora das meninas da whiskeria da rua do Rosário, que vinham ensaiando a Pole Dance nos queijos dos vagões. Não era a primeira vez que ia trabalhar virada. Na noite passada precisou ir para a quadra se apresentar como rainha da bateria da sua comunidade. Essa era a rotina de Lurdinha Samba-fácil sempre perto do Carnaval. Se cantaram alguma vez que o morro foi feito de samba, esqueceram de dizer que isso não sustentava os filhos que Lurdinha teve com o namorado. Orlando Oscar, um motoboy metido a besta, conhecido como Ó ao quadrado tinha engravidado sua preta quando ainda nem tinha carteira assinada.
Em noite de ensaio ninguém podia dormir no ponto. A Escola tem por tradição se reunir no meio da semana para evitar a invasão elitista que ocorre quando seus batuques são realizados nos finais de semana; com o objetivo de angariar fundos para pagar pelo menos os seguranças que ficam na porta para não ter confusão. Lurdinha Samba-Fácil tinha sido coroada há pouco na agremiação. Após a moda das artistas novelísticas assumirem a avenida, a Escola tinha decidido manter a dinastia das Sambas-fácil, fazendo assim uma homenagem à mãe de Lurdinha, a Berê Samba-fácil, que passou todo seu rebolado geneticamente para a filha e respectivamente à comunidade.
Lurdinha levantava todo dia às 5:30 para assumir o plantão da recepcionista do prédio onde funcionava o Jornal dos Jornais. Dali, saía correndo para pegar Lucas e Breno no horário extensivo da escola e os levava para almoçar no botequim do Pereira, onde ficava sabendo das últimas novidades do morro e de seu marido O². Mais dia menos dia, ela ia se cansar daquele homem, ia arranjar um emprego melhor, ou que apenas lhe desse um dinheiro melhor, e se mudaria do lugar onde tinha sido criada e criado seus filhos. Mas por enquanto, sua única preocupação era conservar os músculos inferiores que lhe garantiriam um chocalhar perfeito para conquistar o Estandarte de Ouro como rainha da bateria deste ano.
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