Manu - 26

Qualquer dia de manhã e tudo bem

Por Manuela Musitano

"Eu poderia estar matando, roubando ou fazendo cópia pirata de Tropa de Elite, mas estou aqui pedindo um minuto da sua atenção". Mais uma manhã começava com a ladaínha normal dos ambulantes móveis. Saco.

Ainda faltando uma pequena porcentagem do meu download de sobriedade ser completada, lembro-me que estou a dias com as contas no vermelho. Aguardando o cumprimento do aviso prévio, escuta quase que diariamente do chefe que há sempre uma esperança da empresa ser comprada por aquela multinacional concorrente e afirmo num uníssono que o banco também terá esperanças de um dia receber o que eu devo.

Enquanto o pequeno marginal recolhe seus pedidos em escrito por entre os passageiros, reparo que sou uma das únicas que ouço o som ambiente. Todos, absolutamente todos, incluindo o motorista, o trocador e, talvez, até o próprio pedinte, todos escutam o som que vem de fones de ouvido plugados em algum aparelho eletrônico.

Imagens desfocadas passeiam pela minha mente tentando fazer com que eu chegue até a última vez em que vi e utilizei meu IPOD. Uma corrida pela Lagoa, uma escapada da baia do trabalho, uma festa de aniversário. Será que eu tirei ele da caixa alguma vez? Sim, sim, sim, definitivamente foi ele o mal que me assombrou durante minhas poucas horas de serenidade no almoço de domingo na casa de papai.

Ele a me perguntar como aquilo funcionava, o caçula a me pedir o site de músicas grátis e mamãe a indagar como seus acordes orquestrais ocupariam o menu de pastas do pequeno compactador de sonhos. Eu a explicar, ninguém a me entender e o aparelho a marcar cada vez menos bateria no seu visor. E foi lá, naquela confusão de sentimentos que me esqueci de pegá-lo em cima da estante da sala quando me despedi de todos.

Na esperança de ainda ter meu IPOD intacto, volto no dia seguinte para encontrá-lo não mais onde tinha deixado, mas já conectado ao computador do ex-quarto que virou escritório. Na pressa de sair e me encontrar com Adolfinho, o metaleiro tesudo que mora no 5º andar e que pela primeira vez tinha me chamado para uma balada diferente, não pude conferir se aquele aparelho ainda respeitava meu gosto musical. Apenas me recordo que a pequena metonímia de tesão, ao me encontrar, o tirou da minha mão e o pôs imediatamente no ouvido. E foi assim que levei o segundo fora da minha vida. Os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio.

Suicídio sexual com o Adolfinho, que deu uma desculpa qualquer ao parar o carro e me deixar na esquina com meu IPOD e minha libido na mão.