Mi - 28
Mais um carnaval
Por Michele Paiva
Mais um carnaval chegava e ela, sem amigos, não sabia o que fazer. Tinha a lista de todos os blocos da cidade e de todas as casas noturnas que fariam festa temática, mas não tinha companhia e não sabia sair sozinha, não sabia se divertir sozinha.
Foi ao Saara, comprou fantasia, máscara e tinha prometido que esse ano ia ser diferente, que ela ia sair de qualquer modo.
Marcou os blocos que queria conhecer (aos 30 anos ainda não conhecia nenhum) e os bailes que ela já tinha ouvido falar. Tentou, em vão, achar alguém para lhe acompanhar. Desistiu dos programas que havia agendado com ela mesma nos três primeiros dias.
No último, terça-feira gorda - ela sempre se perguntou o porque desse nome tão feio - saiu de casa com sua fantasia de borboleta e sua peruquinha de Natalie Portman em Closer e subiu Santa Teresa em busca das Carmelitas descalças que entravam na folia, descendo o trajeto que haviam subido na sexta-feira.
Chegou e se assustou com aquele povo todo. Se assustou porque chegou cedo e as ladeiras já estavam tomadas com gente bêbada e feliz, ouso dizer que até um pouco tristes porque já era o último dia de carnaval.
Ela não entendeu nada. O samba do bloco ela não conseguiu ouvir, as pessoas só a amedrontavam, a cerveja dos ambulantes era quente e o calor insuportável.
Desceu as ladeiras antes de enlouquecer, puta da vida, porque perdeu a sessão de Pecados íntimos que ela queria assistir no Estação Botafogo.
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