Manu - 24
VITÓRIA 11 – O SARAU
Por Manuela Musitano
Precisou deitar no chão para esticar as costas. Não conseguiu estalá-las, mas foi relaxante apenas por estar naquela posição. Dormiu mal posicionada no sofá das sala a noite toda. Vânia deixou o apartamento de Vitória ontem, forçada por Ronaldo. Depois de alguns dias de convivência juvenil, bebendo, fumando e dançando em boates alternativas da Lapa, Vitória, cansada, implorou para que o ex viesse buscar a filha.
Ronaldo foi o pior marido de Vitória. Além de já ter uma filha, ele estava de mudança para São Paulo. Vitória odiava São Paulo. Vitória odiava Ronaldo. Vitória odiava sua vida no Rio. Aproveitou uma reforma geral no quarto e sala e se mudou para a cobertura recém habitada pelo namorado e a filha. A distração dela, nessa época, era participar das rodas de leitura da turma de Vânia em sua casa. Vibrou quando a professora de Literatura recomendou “Virgínia” para a classe. Paulista estuda em classe. Fora as jovens tardes do apartamento, Vitória odiava aquela experiência.
Apesar do nome forte, Ronaldo era um homem sensível. Vitória o considerava biba distraída; quando percebesse que era gay, assumia. Não trocava pneu de carro, nem lâmpada queimada em casa e nem cartucho vazio do computador novo das meninas. Ele escutava Tom Jobim. Nenhum problema em escutar Tom Jobim, mas ele escutava o tempo todo. No banho, no almoço, no sexo. Vitória agradecia a sorte de ter nascido mulher quando transava com Ronaldo. A voz de Tom era algo que não a excitava. Se fosse Chico ou Caetano, maravilhosos seres que Vitória conhecia pessoalmente, mas era sempre o maestro. Sempre Wave. Sempre os peixinhos rimando com os beijinhos.
Certa vez, Vânia caiu da escada do prédio e abriu a cabeça. Na hora de socorrê-la, Vitória foi a única que conseguiu chegar perto e acudi-la. Ronaldo vomitou na primeira gota de sangue que viu sair da cabeça da filha. Na sala de espera do hospital, Vitória tentava ler um livro tijolão do seu autor favorito. Ronaldo se aproximou e perguntou qual era o seu problema com ele. Vitória respondeu que esperava uma atitude mais de homem dele. Recebeu um tapa na cara e revidou jogando o tijolão literário no estômago do marido.
A partir de então, foi esperar Vânia se recuperar para se mudar de vez para o Rio. Não voltaria mais para aquele homem e nem para aquela família que não era a dela. Guardava um carinho pela primeira filha que teve, mas não guardava saudades daquela época que não amou Ronaldo.
Toda vez que o encontrava agora, lembrava de quando transaram e ela continuou a ler um livro. Esta foi a imagem na memória que Vitória rebuscou ao se despedir de Ronaldo e Vânia na porta de seu apartamento.
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