K - 15
TARDE QUENTE Por Kleber de Sousa Jorge se sente como a personificação da Lei de Murphy. Tudo o que poderia dar errado em sua via, deu. Pelos menos nos últimos meses. Sua mulher o trai e nem se preocupa muito em disfarçar. Seu trabalho é enfadonho, sem perspectivas de melhora, e seu único amigo de verdade, T-Rex, está esperando a morte na clínica veterinária. Numa tarde de sábado abafada Jorge resolve sair para andar, sem um destino definido. Ele caminha e pensa na vida. Lembra de seus raros momentos de felicidade e tenta entender como chegou a esse ponto. Depois de virar uma esquina quase saindo do perímetro urbano da cidade ele sente um calafrio e reparou que o céu ficou nublado de repente. O que não é de se estranhar, pensou, já que a metereologia previu dia quente e ensolarado. Mais alguns minutos e Jorge se vê no alto da colina que costumava brincar quando criança. O lugar estava exatamente como sua memória se recordava. Lembrou das brincaderias e de seus amiguinhos. Ficou feliz por um instante. Voltou a sua pobre realidade com a primeira gota de chuva que atingiu sua testa. Logo uma tempestade caía sobre ele. Correu de volta a cidade e se protegeu em uma lanchonete. Acabou pedindo um refrigerante para esperar a chuva passar. Os funcionários da lanchonete não lhe eram estranhos. Pagou o refrigerante e foi sentar. Ao fundo um garoto jogava pinball. Jorge adorava pinball. Há anos ele não via uma máquina. Resolveu conferir o desempenho do garoto. O menino estava tenso, como se o jogo fosse sério para ele. Eram nas máquinas de pinball que Jorge se destacava na infância e início da juventude. E só nelas. Seu sonho era criar jogos, mas ele desistiu por uma carreira mais segura. Isso explica muita coisa de sua vida adulta. Quando perdeu a última bola o menino chutou a máquina. Jorge lhe ofereceu uma moeda para comprar mais fichas. Nervoso, o garoto gritou ´vai se ferrar, Jorge´ e foi embora. Atônito, Jorge se sentou. Aquele menino era Pedro, um colega de escola de Jorge e atual amante de sua esposa. Sem saber o que pensar ele voltou a contemplar a chuva através da janela da lanchonete e teve a grande revelação. A imagem refletida era uma que ele não via desde que tinha 10 anos. Tudo voltou como um soco no estômago. A tarde chuvosa, o encontro com Pedro na lanchonete e o acidente... Jorge o salvara na colina quando ele tentou cortar caminho sob a chuva forte. E as coisas aconteceram da mesma forma agora. Jorge escutou gritos da colina e correu para lá. O funcionário da lanchonete chamou o resgate que chegaria apenas depois de 30 minutos. Jorge salvaria Pedro e seria considerado o herói da cidade, exemplo para as coutras crianças. Fama fugaz, infelizmente. Chegando na colina ele viu Pedro se segurando com dificuldade. Sabia o que tinha que fazer, mas, ao se lembrar do que Pedro fez a ele anos depois, hesitou. O menino caiu. Jorge saiu correndo, passou pela lanchonete como um raio. Quando virou a esquina a chuva havia passado o dia estava quente mais uma vez. Ele passou em frente a uma vitrine e sua imagem era a de um adulto. Estava aliviado. Sem saber ao certo o que tinha acontecido, voltou pra casa. T-Rex estava correndo no jardim. Passou por Jorge como se ele não existisse. Sua esposa carregava uma sacola para o carro. Ela estava melhor de alguma forma. Jorge sorriu ao observá-la. Como ela estava de costas para ele não o viu. Não importa, ela não o viria mesmo que estivessem cara-a-cara. Pedro abriu a porta para ela. Ele mancava claramente. Jorge não percebeu, apenas gritou. Ninguém o notou. Assim já era demais. Os dois estavam usando sua casa como alcova. Quando tentou puxar a sua esposa pelo braço a mão de Jorge passou através dela. O casal entrou e fechou a porta. Jorge caiu no chão em desespero. A cada minuto ele sumia mais. A única coisa que poderia fazer, pensou, era retornar à colina. Saiu em disparada. Virou a esquina e o dia continuava quente e ensolarado. Perambulou um pouco e entrou na lanchonete. Sentou-se em frente ao espaço onde antes estava a máquina de pinball. O funcionário da lanchonete se aproximou dele e ofereceu um refrigerante. ´Tome, esse é por minha conta´, disse o rapaz. Ele voltou para trás do balcão e observou Jorge desaparecer.
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