DO OUTRO LADO - pt 2
Por Kleber de Sousa
5
Passa-se mais um dia. E ele dá lugar à noite. Onório escuta grandes asas batendo sobre sua cabeça. O grande pássaro pousa próximo a ele.
- Onório, esse não e o seu lugar. Vamos.
- Desculpe-me sr. Pássaro. Mas é meio difícil eu sair de onde estou. Eu morri, compreende?
- Sim, eu sei de tudo que se passa com você desde o seu nascimento. Sou seu anjo da guarda.
- Ah, é. Pois fique sabendo que você fez um trabalho de merda. Eu morri há quatro dias. Ninguém tirou meu corpo daqui e o pior: morri virgem. Seu inútil.
Percebendo que não poderia fazer mais nada a grande criatura alada levanta vôo.
- Ei, amigo. Chama a árvore. Nesse momento Onório começa a tentar visualizar a árvore falante. A minha imagem que sua mente constrói é aquela comum em desenhos animados: árvores com rostos nos troncos.
- Oi. Alguma novidade?
- Amanhã eu te tiro daqui.
- Beleza, árvore.
Nessa mesma noite Onório percebeu uma movimentação no cemitério. Parece que finalmente alguém tinha morrido na cidade. Alguém além dele próprio, corrigiu-se rápido. Ele escutou as vozes dos garotos que haviam encontrado seu violão e finalmente as reconheceu. Eles eram alunos do conservatório de música, assim como Onório. Será que morreu um parente deles, pensou o jovem?
6
Apesar de estranhos a princípio, árvores falantes, pessoas mortas que ainda não se foram criaturas noturnas e outras coisas são mais comuns do que se imagina. Qualquer um que conversar dez minutos com o Sr. Juvenal escutaria, pelo menos, meia dúzia historias. Só que ninguém faz isso.
Ele também costumava distribuir conselhos a todos. Nessa cidade, dizia ele, você tem que respeitar todas as coisas. Os portões das casas, os animais, os cestos de lixo e os postes. Nunca se sabe quando um deles vai se enfezar e ´dar o troco´. Nem mesmo as crianças pequenas eram perdoadas então o melhor era não arriscar. Da mesma forma as boas ações davam frutos no futuro.
O Sr. Juvenal pensa seriamente em escrever um livro qualquer dia desses. Ainda mais agora que o trabalho no cemitério está diminuindo. Uma das historias com certeza seria a da menina que batia no seu gatinho. Ela era muito novinha, mas a única coisa que o gato sabia era que ele era alvo de alguém muito cruel. O troco não tardou. Tempos depois a menina foi achada em sua casa toda arranhada. Ela foi levada para o hospital mas as infecções foram muito graves. A morte dela foi atribuída à epidemia de raiva que tomou conta da cidade. O Sr. Juvenal sabia que não era isso. Mas ninguém o escutava.
7
- Não faça nenhum barulho agora. Pediu a árvore.
- E por que isso? Eu estou morto.
- Cale-se se não meu plano não dará certo. Hoje você sai daqui. Depois disso a árvore se calou novamente.
Enquanto o enterro acontecia um homem bem vestido se sentou no canteiro, ao lado de Onório. Ele estava comendo pipoca.
- Aceita uma pipoca?
- Bem que eu gostaria, mas se o senhor não percebeu eu estou morto.
- Percebi sim. Só não entendi o que você ainda está fazendo aqui.
- Bem, eu meio que fiquei preso aqui. Ninguém achou o meu corpo.
- Ah, então é isso que você acha. Eu poderia ajudá-lo, mas vejo que já há um pacto em vigor aqui. Boa sorte pra você. Quem sabe a gente não se esbarra por aí. Ah, uma última coisa: não era você que vinha escutar as histórias do coveiro?
- Era. Por quê?
- Nada, não. Se você tivesse prestado mais atenção a elas. Agora eu preciso que ir. Ainda tenho outros compromissos essa noite.
O estranho se foi deixando Onório com seus pensamentos. Pensamentos que o levaram ao passado. Ate a segunda série. Dia do verde. A escola dele, para conscientizar as crianças dos problemas ambientais organizou uma grande atividade. Todos os alunos iriam plantas mudas de árvores e flores nativas pela cidade. A classe que plantasse mais mudas ganharia uma excursão ao parque de diversões. E eles quase ganharam a excursão. Não fosse pela última arvore plantada por um aluno da outra classe na entrada do cemitério. Cheio de desapontamento e raiva Onório foi ata a árvore recém plantada. Ele a chutou. Tentou puxa-la pela raiz, mas não conseguiu. A única coisa que ele conseguiu fazer foi amaldiçoar a árvore com todas as suas forças. Eu quero que você morra!, disse o jovem. Não demorou a raiva passou ele esqueceu desse acontecido. A árvore não.
8
- Tudo pronto, amiguinho, diz a árvore. - Você parece assustado. O que foi?
- Nada, não. Olha, eu queria desfazer o nosso acordo. Você não precisa me ajudar, sabe...
- Ah, vejo que se lembrou, interrompeu a árvore. - Agora e tarde. O que está feito está feito.
- Me perdoe, por favor. É só o que eu peço. Não fiz por mal.
- Não precisa ficar assustado. Eu não sou de guardar rancor. Feche os olhos. Quando você os abrir estará de volta em seu corpo.
Ainda assustado Onório fecha os olhos.
- Desculpa mesmo.
A árvore nada responde.
Em um piscar de olhos Onório está de volta em seu corpo. Ele está um tanto frio e respira com certa dificuldade. Seu coração está batendo. Onório está com medo de abrir os olhos. Ele aguarda mais um instante. Primeiro toca o rosto e sente sua pele. Ele abre os olhos. Ele está deitado em uma cama muito escura. Não consegue enxergar nada. Tenta se levantar e bate a cabeça. Dos lados, fechado. Fechado por todos os lados. Ele grita. Mas é difícil de se escutar alguém com sete palmos de terra sobre ele. Se o Sr. Juvenal não estivesse tão compenetrado escrevendo seu livro ele poderia ter escutado.
Parece que não demorará muito para Onório encontrar o homem bem vestido novamente.