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Manu - 21

Por Manuela Musitano

Querido diário, hoje, enfim, eu consegui matar a minha irmã. Demorou para ela parar de respirar, eu não agüentava mais segurar o travesseiro na cara dela. Foi um alívio. Eu achei que fosse me sentir culpada pela minha mãe, meu pai. Mas eu estou bem. Pela primeira vez na vida eu chorei de felicidade. Choro de raiva dá dor na garganta e agora eu não sentirei mais dor. Ela me machucava com as suas palavras e atitudes grosseiras. Se a justiça divina não falha, ela vai pro inferno, tenho certeza. E eu, eu já estou no céu desde que vi seu corpo mole repousado no caixão. É claro que eu não gostei de ver as pessoas chorarem por ela, porque esta vaca não merecia isso. Paro e penso qual seria o destino dela aqui. Me fazer uma assassina? Papel cumprido, baby. Agora eu gasto o pouco que tenho na reforma do seu quarto. Briguei muito para transformá-lo em escritório, porque minha mãe queria conservá-lo do jeito que você deixou, impecável. Mas meu amor, quem reina agora sou eu. Como a polícia é boba o suficiente de cair na minha lábia e não perceber minhas contradições sobre o dia do crime? Crime não, porque crime sempre está ligado a algo ruim. Dia da minha redenção. Meu Deus, uma mãe só minha, um computador só meu, um banheiro só meu. Nada poderia ser melhor que isso. Se você tem uma irmã, mate-a e verás que a felicidade pode estar numa poça de sangue.



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 22h53
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K-13

No passado o homem se perguntava se ele ele estava sozinho no universo. No início do século passado os cientistas, graças à mecânica quântica, descobriram, entre outras coisas, que nem mesmo o nosso universo está sozinho. Ele faz parte do multiverso. Dentre as inúmeras possibilidades é consenso que a maioria delas é muito semelhante uma a outra e alguns poucos casos as coisas são bem diferentes. Em uma Terra paralela o Brasil pode ser hexa-campeão de futebol em outra o futebol pode nem ter sido inventado. É com base nessa premissa que pode-se perguntar:

 

O QUE ACONTECERIA DE O SR. JOAQUIM NÃO TIVESSE BROCHADO

Por Kleber de Sousa

 

Em nosso mundo a incapacidade do pênis do Sr. Joaquim reter sangue e sua insistência em continuar tentando levou à morte prematura do jovem Onório. Mas aqui o fato transcorreu de outra maneira.

 

A vida do Sr. Joaquim seria completamente pacata, trabalhador honesto que jamais faltou ou chegou atrasado, casado e com dois filhos na escola, não fosse seu único prazer secreto. Prazer esse que ele levava a cabo no final de cada mês. Em outras palavras, hoje. É dia do pagamento e conseqüentemente o dia em que ele se encontra com Pedrinho, o primo do cobrador Josias. Todo último dia útil do mês Sr. Joaquim dá cinqüenta reais a Josias que, em contrapartida, leva o seu primo ao ponto final do ônibus, na hora do almoço, para ter com o motorista. Na cabeça do Sr. Joaquim esse é o melhor investimento que ele fez na vida. Pedrinho e o Sr. Joaquim se dirigem ao posto da empresa de ônibus próximo à parada de ônibus. O encarregado está almoçando e Josias fica de vigia.

 

Como sempre fazia nessas ocasiões o Sr. Joaquim tirou primeiro o uniforme da empresa e depois, com muito cuidado, a camisa número 10 do Vasco, que ele sempre vestia por debaixo. Doubrou-a e a colocou sobre a pequena escrivaninha. Pedrinho tratou de atacar rápido o membro do Sr. Joaquim. Normalmente Pedrinho era penetrado pelo motorista, mas como os dois haviam esquecido o preservativo hoje ficariam apenas no sexo oral. Encostado na parede do pequeno posto o Sr. Joaquim se controcia com a habilidade de Pedrinho. Para azar dele Josias dá o sinal. O encarregado se aproximava. E bem no clímax. Assustado Pedrinho se afastou o rosto e Sr. Joaquim acabou ajaculando sobre a camisa do Vasco. E ele nem percebeu pois estava com os olhos fechados. Rapidamente ele vestiu o uniforme e saiu com Pedrinho enquanto Josias destaria o encarregado.

 

14h40. De volta ao trabalho e no horário, o Sr. Joaquim dirigia o ônibus compenetradamente. Ao entrar na Rua Comendador Mendes Dário ele vê Onório afoito, fazendo sinal para o ônibus parar. Mesmo fora do ponto ele pára e o garoto sobe. Ofegando muito Onório senta no banco da frente. O que foi rapaz?, pergunta o Sr. Joaquim um pouco assustado. Tenho que tomar remédio. Em casa, reponde com dificuladade o garoto muito suado por causa da sua corrida e do calor incomum dessa tarde. O Sr. Joaquim acelera o ônibus. Ele conhece Onório que estuda com seu filho mais velho. Afoito, ele procura por sua toalha para emprestar a Onório, sem, no entanto, tirar os olhos da rua. Ele sabe que a maioria dos acidentes acontece por falta de atenção. Tome, use isso para tirar o suor, diz o motorista sempre olhando pra frente. Onório agradece enquanto estica o braço, quase sem forças para apanhá-lo. Ele limpa primeiro o rosto mas sente algo viscoso se misturando ao suor. Por engano o Sr. Joaquim deu a camisa do Vasco para ele se limpar. 14h45. Onório perde os sentidos. O cobrador percebe e avisa o motorista. Ele resolve dobrar a direita. Há um posto médico ali. Ele freia de uma vez. Com a ajuda de Josias levam o jovem ao posto gritando por ajuda. Um médico chaga rápido. Ele tenta reanimar Onório por cinco minutos. Não foi possível salvá-lo. O médico não conseguiu diagnosticar a causa da morte, precisaria de mais exames. Josias e o Sr. Joaquim deixam os números de telefone e um cartão da empresa. Eles não estavam mais em condições de trabalhar nesse dia.

 

O Sr. Joaquim não jantou. Não conseguiu. Às 22h alguém toca a campainha de sua casa. Ele vai abrir. Quatro policiais dão voz de prisão a ele. Acusação violentar e matar o menor Onório Gonçalves. Sua mulher desmaia com o nervosismo. Os exames comprovam que o sêmem encontrado na boca e no rosto de Onório são do Sr. Joaquim, entretanto não foi verficado nenhum sinal de violência e tampouco houve coito.

 

O Sr. Joaquim aguarda julgamento na cadeia municipal.



Categoria: Kleber
Escrito por Michele e Kleber às 22h50
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K-12

DO OUTRO LADO - pt 1

Por Kleber de Sousa

1

Onório, filho de Creide e Marco, estava voltando da aula de violão para sua casa. Andava tranqüilamente pela calçada da Rua Comendador Mendes Dário. A tarde de sábado estava ensolarada e a brisa espalhava as folhas das árvores que decoravam toda a cidade. Meio que por acaso, ou não, afinal o que acontece por acaso na vida?, Onório olha para o relógio. 14h35. O pavor toma conta do jovem. Ele esqueceu seu remédio em casa e tem que tomá-lo até 14h45. Dez minutos separam Onório de um mundo de incertezas. Ele aperta o passo mesmo sabendo que não chegará a tempo. Pelo menos não a pé. Para seu azar nenhum ônibus ou carro passa pela rua. Onde estaria seu Joaquim, o motorista da linha 15? 14h45. Onório sente um forte golpe dentro de seu peito. Ele cai. Tenta levantar. Outro golpe. Knock-out. Dá três passos e cai entre os arbustos. Violonista e violão caídos sem vida, no final da Rua Comendador Mendes Dário, em frente ao cemitério.

Seu violão a seu lado, mas bem a vista. Algumas horas depois um grupo de garotos passou pela rua. Eles encontraram o violão. Gritaram pelo dono. Ninguém respondeu. Mesmo estando bem próximo Onório jamais responderia. Ela estava morto. Os garotos correram para pedir ajuda a um velho funcionário do cemitério, Sr. Juvenal.

Três dias mais tarde e Onório ainda estava morto na moita. A situação já estava ficando chata. Ele tinha plena convicção de que havia morrido, entretanto não entendia por que sua alma não havia deixado seu corpo. E o fato de ele estar ali há três dias e nenhum de seus parente ou amigos ter procurado por ele o deprimia um pouco mais. A situação estava prestes a mudar.

- Oi, meu jovenzinho, disse uma árvore próxima de Onório.

- Hein, respondeu o finado garoto.

2

É importante salientar que o destino de Onório poderia ter sido bem diferente, não tivesse o ônibus dirigido por Seu Joaquim atrasado tanto. Fato raro na carreira de um profissional exemplar. Ainda bem que, como para a maioria das coisas na vida, isso tem uma explicação.

Era dia do pagamento e era nesse dia nesse dia que Seu Joaquim transava com Maciel, no posto da empresa de ônibus colocado no ponto final de sua linha. Seu Joaquim é cliente antigo de Maciel e, por mais clichê que a próxima frase possa parecer, isso nunca tinha acontecido a ele antes:

- É, Seu Joaquim. Pelo jeito hoje não vai dar.

- Como assim, chupa essa porra moleque.

- Sei lá, Seu Joaquim, é só uma idéia, mas se o senhor quiser eu posso te comer.

- Eu num sô viado não, moleque. Agora vai chupando logo que eu já to atrasado.

Vinte longos minutos se passam e nada. O cobrador bate na porta, avisando Seu Joaquim do horário. Ele paga Maciel a contragosto e sai meio cabisbaixo. Enquanto liga o ônibus promete a si mesmo que dará a volta por cima à noite, com sua esposa.

3

- Você é mesmo uma árvore?, pergunta Onório, ainda caído entre os arbustos.

- Sou. Qual o problema?

- Bem, nenhum. E que eu não sabia que vocês falavam. Só isso.

- Certo. Eu não posso dizer muito. Só essa conversinha está me matando. O negocio é o seguinte, umas pessoas virão te procurar. Cuidado com elas.

- E por que eu deveria acreditar em você?

- Ora, porque foi você que me plantou aqui há mais de dez anos. E Onório se lembra vagamente de uma atividade extra-classe em que ele e seus colegas plantaram árvores por toda a cidade. - Eu tenho uma divida eterna com você. E vou pagá-la. Estamos de acordo?

- Estamos.

4

Mais um dia tedioso se passou. Poucas pessoas passavam em frente ao cemitério e como poucas pessoas morriam na cidade aquela era região realmente deserta. No segundo dia um vira-lata usou Onório como marco de referência de seu território. O pobre garoto não pôde fazer nada. Até que uma velinha percebe algo diferente no canteiro perto da entrada do cemitério. Ela usa sua sombrinha para cutucar Onório. Se estivesse vivo ele certamente reclamaria dos cutucões da velha.

- Meu filho, que situação incômoda, não?

- É verdade, responde o garoto sem mexer os lábios, da mesma forma como havia falado com a árvore um dia antes.

- Aposto que você gostaria de sair daí. Que tal voltar a sua vida normal?

Onório se sentiu tentado, mas se lembrou das palavras da árvore.

- A senhora é muito gentil, mas não precisa. Eu só estou matando o tempo.

- Humpf, essas crianças de hoje. Não sabem de nada. E foi-se embora a velinha.

Alguns instantes depois a árvore volta a falar com ele.

- Muito bem ,meu amiguinho. Agora cuidado, amanhã será pior.

- Mas escuta aqui. Até quando eu vou ficar nessa situação?

- Não se preocupe, eu já estou mexendo meus pauzinhos. He he, essa foi boa...



Categoria: Kleber
Escrito por Michele e Kleber às 11h11
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K-12

DO OUTRO LADO - pt 2

Por Kleber de Sousa

5

Passa-se mais um dia. E ele dá lugar à noite. Onório escuta grandes asas batendo sobre sua cabeça. O grande pássaro pousa próximo a ele.

- Onório, esse não e o seu lugar. Vamos.

- Desculpe-me sr. Pássaro. Mas é meio difícil eu sair de onde estou. Eu morri, compreende?

- Sim, eu sei de tudo que se passa com você desde o seu nascimento. Sou seu anjo da guarda.

- Ah, é. Pois fique sabendo que você fez um trabalho de merda. Eu morri há quatro dias. Ninguém tirou meu corpo daqui e o pior: morri virgem. Seu inútil.

Percebendo que não poderia fazer mais nada a grande criatura alada levanta vôo.

- Ei, amigo. Chama a árvore. Nesse momento Onório começa a tentar visualizar a árvore falante. A minha imagem que sua mente constrói é aquela comum em desenhos animados: árvores com rostos nos troncos.

- Oi. Alguma novidade?

- Amanhã eu te tiro daqui.

- Beleza, árvore.

Nessa mesma noite Onório percebeu uma movimentação no cemitério. Parece que finalmente alguém tinha morrido na cidade. Alguém além dele próprio, corrigiu-se rápido. Ele escutou as vozes dos garotos que haviam encontrado seu violão e finalmente as reconheceu. Eles eram alunos do conservatório de música, assim como Onório. Será que morreu um parente deles, pensou o jovem?

6

Apesar de estranhos a princípio, árvores falantes, pessoas mortas que ainda não se foram criaturas noturnas e outras coisas são mais comuns do que se imagina. Qualquer um que conversar dez minutos com o Sr. Juvenal escutaria, pelo menos, meia dúzia historias. Só que ninguém faz isso.

Ele também costumava distribuir conselhos a todos. Nessa cidade, dizia ele, você tem que respeitar todas as coisas. Os portões das casas, os animais, os cestos de lixo e os postes. Nunca se sabe quando um deles vai se enfezar e ´dar o troco´. Nem mesmo as crianças pequenas eram perdoadas então o melhor era não arriscar. Da mesma forma as boas ações davam frutos no futuro.

O Sr. Juvenal pensa seriamente em escrever um livro qualquer dia desses. Ainda mais agora que o trabalho no cemitério está diminuindo. Uma das historias com certeza seria a da menina que batia no seu gatinho. Ela era muito novinha, mas a única coisa que o gato sabia era que ele era alvo de alguém muito cruel. O troco não tardou. Tempos depois a menina foi achada em sua casa toda arranhada. Ela foi levada para o hospital mas as infecções foram muito graves. A morte dela foi atribuída à epidemia de raiva que tomou conta da cidade. O Sr. Juvenal sabia que não era isso. Mas ninguém o escutava.

7

- Não faça nenhum barulho agora. Pediu a árvore.

- E por que isso? Eu estou morto.

- Cale-se se não meu plano não dará certo. Hoje você sai daqui. Depois disso a árvore se calou novamente.

Enquanto o enterro acontecia um homem bem vestido se sentou no canteiro, ao lado de Onório. Ele estava comendo pipoca.

- Aceita uma pipoca?

- Bem que eu gostaria, mas se o senhor não percebeu eu estou morto.

- Percebi sim. Só não entendi o que você ainda está fazendo aqui.

- Bem, eu meio que fiquei preso aqui. Ninguém achou o meu corpo.

- Ah, então é isso que você acha. Eu poderia ajudá-lo, mas vejo que já há um pacto em vigor aqui. Boa sorte pra você. Quem sabe a gente não se esbarra por aí. Ah, uma última coisa: não era você que vinha escutar as histórias do coveiro?

- Era. Por quê?

- Nada, não. Se você tivesse prestado mais atenção a elas. Agora eu preciso que ir. Ainda tenho outros compromissos essa noite.

O estranho se foi deixando Onório com seus pensamentos. Pensamentos que o levaram ao passado. Ate a segunda série. Dia do verde. A escola dele, para conscientizar as crianças dos problemas ambientais organizou uma grande atividade. Todos os alunos iriam plantas mudas de árvores e flores nativas pela cidade. A classe que plantasse mais mudas ganharia uma excursão ao parque de diversões. E eles quase ganharam a excursão. Não fosse pela última arvore plantada por um aluno da outra classe na entrada do cemitério. Cheio de desapontamento e raiva Onório foi ata a árvore recém plantada. Ele a chutou. Tentou puxa-la pela raiz, mas não conseguiu. A única coisa que ele conseguiu fazer foi amaldiçoar a árvore com todas as suas forças. Eu quero que você morra!, disse o jovem. Não demorou a raiva passou ele esqueceu desse acontecido. A árvore não.

8

- Tudo pronto, amiguinho, diz a árvore. - Você parece assustado. O que foi?

- Nada, não. Olha, eu queria desfazer o nosso acordo. Você não precisa me ajudar, sabe...

- Ah, vejo que se lembrou, interrompeu a árvore. - Agora e tarde. O que está feito está feito.

- Me perdoe, por favor. É só o que eu peço. Não fiz por mal.

- Não precisa ficar assustado. Eu não sou de guardar rancor. Feche os olhos. Quando você os abrir estará de volta em seu corpo.

Ainda assustado Onório fecha os olhos.

- Desculpa mesmo.

A árvore nada responde.

Em um piscar de olhos Onório está de volta em seu corpo. Ele está um tanto frio e respira com certa dificuldade. Seu coração está batendo. Onório está com medo de abrir os olhos. Ele aguarda mais um instante. Primeiro toca o rosto e sente sua pele. Ele abre os olhos. Ele está deitado em uma cama muito escura. Não consegue enxergar nada. Tenta se levantar e bate a cabeça. Dos lados, fechado. Fechado por todos os lados. Ele grita. Mas é difícil de se escutar alguém com sete palmos de terra sobre ele. Se o Sr. Juvenal não estivesse tão compenetrado escrevendo seu livro ele poderia ter escutado.

Parece que não demorará muito para Onório encontrar o homem bem vestido novamente.

 



Categoria: Kleber
Escrito por Michele e Kleber às 11h10
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