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Mi - 16

COMEÇANDO BEM O DIA

Por Michele Paiva

Tinha acordado puta da vida. Muito puta mesmo. A porra do meu celular não despertou na hora que deveria e eu pulei da cama depois das oito horas. Pulei literalmente e fiz tudo correndo, acabei escolhendo uma roupa horrorosa e adquiri uma bela dor de cabeça.

Estava no metrô impaciente, com tantas estações inúteis e um vagão lotado de homens que se aproveitam da situação para se esfregarem na gente, pobres mulheres. Quando chegou no centro da cidade e o vagão ficou mais respirável, consegui um lugar para sentar.

Não conseguia parar de bufar de impaciência e raiva por uma sexta-feira começar tão ruim. Recebi um torpedo cancelando o programa que tinha para fazer a noite, para completar meu caos.

Mas aí surge um ser lindo que senta a minha frente. Havia muito tempo que não via alguém tão bonito, charmoso e aparentemente inteligente. Sim, sou levada a aparências estereotipadas. Ele era meio largado, barba por fazer, mas tinha um olhar inteligente, por baixo dos óculos de aro grosso, como os meus, aliás. Tinha umas mãos bonitas e a mochila estava cheia de livros, presumi. Achei aquilo fantástico. Sempre me empolgo com pessoas que lêm e ele parecia especialmente apaixonado por leitura.

Eu estava viajando, compondo uma personalidade para um cara gostosão que sentava a minha frente no metrô, me divertindo quase com aquilo, torcendo para ele olhar ao menos para mim, quando ele abre a mochila e pega um livro. Normalmente já quero saber o que as pessoas estão lendo, quando vejo alguém ler, ele então...

Sem aviso prévio um balde d´água caiu na linda pintura que eu estava pincelando em minha mente. Ele estava lendo Sidney Sheldon. Porra, Sidney Sheldon. Não consegui ler o título, mas isso também não importa.

Puta que o pariu. Eu lia Sidney Sheldon quando tinha 13 anos e achava muito excitante a fórmula 'dinheiro+poder+sexo+desgraças'. Mas eu achei legal até meus 14/15 anos, no máximo. E esse cara que ERA lindo e parece até mais velho que eu. Porém é burro, nem sabe escolher o que ler. Caralho! Que idiota!

Ih, chegou minha estação.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 12h11
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K-11

TÉCNICAS DE CAÇA

Por Kleber de Sousa

 

Cara, esse negócio de narrador-personagem não é bem o que eu esperava. Não é nada do que eu esperava, pra ser sincero. Principalmente porque, apesar de eu ser tanto o narrador quanto o protagonista dessa pequena história não sou eu quem a escreve. E não há nada que eu possa fazer a respeito, pelo menos por enquanto. Droga! Vejo-me forçado a interromper minha linha de raciocínio e começar de imediato a narrativa. Antes de mais nada me apresentarei: meu nome é Francismar Almeida Filho. Minha profissão: caçador, melhor dizendo, caçador de mulheres. Eu poderia dizer que sou um imã para mulheres porque há realmente uma atração delas por mim, mas seria frio demais – além de me desmerecer.

 

Minhas caças passam por um rigoroso processo de seleção, antes mesmo de saberem que estão sendo caçadas. Só depois que eu tenho certeza da qualidade da presa eu entro em ação. Não há como errar porque eu sou preciso. Perdoem minha falta de modéstia, mas modéstia é sinônimo de falsidade. O que eu quero dizer é que sou o cara e hoje vocês me acompanharão em mais uma investida.

 

Um bom caçador sabe que a presa pode ser encontrada em qualquer lugar, basta prestar atenção. Bem, sempre vou ao trabalho de metrô e há mais ou menos um mês notei um rosto novo na minha estação. Alta, óculos, roupa social e sempre carregando livros. Isso é o que qualquer um veria. Eu, caçador exímio, vejo uma mulher intelectual mas bem cuidada, que trabalha em escritório e não está comprometida – não que esse ultimo item faça muita diferença para mim. O que eu fiz até agora: troquei minhas lentes por óculos de armação grossa, passei a usar roupas um pouco mais moderninhas e me coloquei `casualmente` no campo de visão dela. Essa estratégia aliada à minha boa aparência foi, como diria meu pai, tiro e queda. Há duas semanas a garota intelectual me olha insistentemente. Eu a ignoro. Ainda não era hora. Entretanto para a sorte dela a hora chegou. Dentro de poucos instantes ela estará irremediavelmente apaixonada por mim. Começo a mexer na mochila. Ela já me olhou duas vezes. Eu levanto o rosto. Ela desvia o olhar, e ri sem graça. Está no papo. Espero mais um instante. Na próxima estação o metrô esvazia bastante.

 

Touchet. Eu tiro da mochila meu livro favorito, Escrito nas Estrelas. Não há intelectual que resista.

 

Ué. Parece que ela se assustou com algo! Há, ela vem em minha direção... e passa direto, com a cara fechada. Intelectual nada, essa me enganou direitinho. Olha ali uma garota tatuada e cheia de piercings. Nunca peguei uma de piercing. Essa aí está com sorte...



Categoria: Kleber
Escrito por Michele e Kleber às 22h15
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