Manu - 20

VITÓRIA 10

Por Manuela Musitano

Vitória tem uma preguiça interna que chama de depressão. Caracterizou-a assim para as pessoas entenderem que se trata de uma coisa séria e não insistirem em programações na companhia dela quando ela diz que está depressiva. Sempre foi assim. Quando pintava alguma coisa divertida com alguém legal, Vitória tinha medo de participar e se fosse, amanhecia no dia seguinte com alguma doença somatizada. Culpa é uma coisa que ela tem muito. Mas é uma culpa por agir erroneamente com terceiros. Não é uma culpa por não conseguir fazer as coisas que a façam feliz. Coisas simples como ir à farmácia, se pesar e constatar que está no peso ideal. Vitória não consegue fazer nada prazeroso na vida.

Acha que isso tudo começou depois que tomou verdades absolutas, inventadas por ela, como realidades. A verdade absoluta de "odeio crianças" foi criada em um papo informal com um pretendente. Após analisar toda a carga genética que seu descendente herdaria daquele companheiro, Vitória soltou, despretensiosamente, o ato falho que defende até hoje. A primeira crise de síndrome do pânico também foi desenvolvida a partir de uma dessas verdades impostas por Vitória a ela mesma. Não saía na rua se alguma coisa do seu mundinho perfeito desse errado. Uma simples batida da mão no Box, enquanto penteava o cabelo, já a deixava de cama naquele dia.

Vitória era uma pessoa muito suscetível. Bastou aparecer no jornal que um elevador despencou de um prédio e matou uma pessoa, para ela criar a mania do elevador. Toda vez que vai pegar um elevador, em qualquer lugar, segura a porta e dá uma pisada forte no elevador, deixando o outro pé do lado de fora. Quando, gentilmente, alguém fazia sinal para que ela entrasse primeiro, ela sempre ia para trás da pessoa e segurava a porta do elevador, para que o outro "testasse" a credibilidade das cordas que o seguravam.

Hoje ela acordou com uma grande preguiça interna. Mesmo com os inúmeros recados de Deca convidando-a para ir à sua casa, Vitória ainda estava em dúvida se devia se divertir naquele final de tarde nebuloso.