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Manu - 32
Minha vida com Ludmila 2
Por Manuela Musitano
Ludmila agora resolveu matar as aulas da faculdade. Semana passada eu desconfio que ela só foi na aula de quinta-feira, porque tinha combinado de ir jantar no restaurante japonês com a Jussara, uma amiga dela desde os tempos de antes da faculdade.
E lá foi Ludmila matar o segundo tempo de aula de quinta-feira, a primeira aula que ela tinha ido na semana.
Ludmila agora está com mania também de levar o namorado nas nossas aulas de Globalização. Quando questionado, ele me disse que não tinha gostado muito da aula, mas que continuaria indo porque não tinha mais nada pra fazer naquele horário. Questionei então à Ludmila, se aquilo era normal, porque sinceramente, se eu não tivesse nada pra fazer naquele horário, iria pra casa ver a minha televisão. Ludmila disse que aquilo era normal, que ele era muito NERD. Que quando eles moraram no EUA, ele ia a biblioteca consultar livros comunistas e ela teve muito medo de ser expulsa da terra de Mr. Mouse por conta disso.
Hoje eu disse a ela que amanhã trabalharei em casa, como ela fez certo dia já relatado aqui por mim. Ela disse então que eu estava muito competitiva, só que mais competitiva é ela, que usa a minha frase-tema de quando quero sacaneá-la. Combinei também de ir com ela a Itaipava fazer umas comprinhas, pois estou bem precisada e sem grana, apesar de ter pago 49,90 numa blusa linda na Renner e mais 30 e poucos numa calcinha e num sutiã que não vou usar com ninguém tão cedo. Não que eu esteja em greve de sexo de novo, mas é que eu ando bem assexuada, com o espírito elevado, sem pensar muito nessas coisas mundanas.
Já volto, vou responder à Ludmila que tá me chamando aqui no MSN e eu já sei, que se eu demoro mais um pouco a responder, ela fica me sacaneando, perguntando se eu estou trabalhando. Que pergunta retórica, como se ela já não soubesse...
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 20h15
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Mi - 44
Se não gostou, me pega!
Por Michele Paiva
Eu sou mutissíssimo possessiva. Muito. E principalmente com coisas que não são minhas.
Eu sei que sou louca, mas sou e pronto. Não preciso fazer terapia por conta disso.
Odiava quando estava na faculdade e havia algum evento externo. Tipo, enchia MINHA faculdade de gente que não era de lá...Isso me dava uma raivinha escrota.
Odeio ver gente com a mesma roupa que eu, amando os mesmos autores que amo, se achando íntima de coisas, lugares, personalidades que são minhas.
Fico imaginando os habitantes de cidades como Paris, Roma e etc...Cara, todo o mundo quer visitar e a cidade está cheia o tempo inteiro. Deve ser terrível. Eu moro numa cidade que é alvo do turismo mundial também, mas nada comparável à Europa.E nem é xenofobia, não. É "possessividade" mesmo.
Mas nada se compara às pessoas que enlouquecem ao meu lado quando meu cantor favorito está em cena. Principalmente quando eu as conheço.
Já não faço a linha tiete histérica, porque além de ser patético, não vou dar esse mole, mas ter alguém do lado assim é triste. E revoltante.
Por mim, ninguém nem gostava dele, e o show seria só meu, mas acho que isso não ia ser bom para sua carreira, então abro precedentes. Mas é muito ruim, porque tenho vontade de matar a pessoa, de verdade. Juro, é a única hora em que meu instinto assassino vem à tona de verdade, me dá medo até. Sinto todo o meu sangue ir para o meu rosto, minha garganta se prepara para um grito alucinante e minhas mãos procuram um objeto perfuro-cortante, mas eu tento abstrair e segurar toda esta raiva para mim. Às vezes, eu consigo.
É amor. Eu sou assim e não tenho grandes problemas com isso; sem culpa alguma pela insanidade revelada . Se não gostou, me pega.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 03h07
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Manu - 31
Minha vida com Ludmila
Por Manuela Musitano
Ontem Ludmila foi à aula apenas para pegar documentos com a colega que trabalha na Caixa Econômica e estava adiantando uma consulta que Ludmila precisava fazer para tirar sua carteira de trabalho. Aliás, isto está um parto, ela tenta tirar outra carteira desde o início do mês, mas como trabalha em Botafogo e quer ir no posto da Tijuca, por acreditar que lá seja mais fácil de tirar, acaba não indo nunca.
Ela chegou já no fim do intervalo e ficamos conversando durante o segundo tempo da aula da Lia. Nós já havíamos conversado a tarde inteira, no MSN, como de costume, mas sempre temos papo para mais uma meia hora ou duas. Teria sido mais inteligente de minha parte se eu tivesse pego meu material e ido embora logo com ela, do que as duas terem ficado sentadas esperando a aula acabar para eu entrar e pegar minhas coisas. Gabriela não foi à aula.
Entre vários assuntos, incluindo ela me ensinar a mexer num compartilhador de arquivos, ela me contou que tinham tido uma vez uma empregada alcoólatra, que certa vez teve um surto, porque Ludmila possuía um boneco de borracha que parecia um bebê recém nascido, com o qual a empregada levava sustos atrás do outro. Neste dia, Ludmila ficou balançando o boneco na janela que dava para o quarto da empregada e a mulher desceu as escadas do prédio de uma vez só, sem nem sequer voltar para pegar o dinheiro que lhe cabia.
Ludmila disse, que certa vez ela fez um chá e colocou uma dose de álcool de limpeza. Brinquei dizendo que ela poderia colocar álcool de cereais. Nesta hora estávamos passando pela porta da sala de aula de gastronomia, já indo embora pra casa. Ela me contou de outras histórias de empregadas suas e me pareceu que eles nunca tiveram muita sorte com empregadas.
Escuto meu cd da Tereza Cristina e aguardo retorno de Ludmila no MSN, já que hoje ela está trabalhando em casa e não pode deixar no status "em reunião", como ela faz quando quer se livrar de mim...
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 20h28
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Mi - 43
Entre balas e frituras
Por Michele Paiva
Eu não tenho escrito com tanta freqüência aqui, sei disso, mea culpa. Mas outro dia tentei escrever sobre um assunto que me aflige deveras ultimamente: dieta. A dificuldade de fazê-la, de mantê-la e etc. O texto ficou uma merda, mas serviu para eu me dar conta de certas coisas.
Estou num emprego novo. Apesar de eu já estar aqui há 3 semanas e o trabalho de verdade não ter começado de vez, tá bem legal. É uma empresa gigante e parecem ser bem certinhos nos quesitos práticos de pagamentos e coisas que o valham, porém agora trabalho numa área de risco. Super de risco, eu diria.
Meu chefe tinha falado uma coisa que não tinha conseguido captar - e fingi que entendi, como faço com milhares de outras coisas que não ouço direito - sobre parecer um filme sendo produzido aos nossos olhos quando coisas bizarras acontecem aqui na frente do prédio. Até que um dia... Indo para casa, de ônibus, encaro uma ação cinematográfica de um assalto a um carro à mão armada e tudo. Um terror. Um medo danado e uma gritaria no ônibus de fazer a gente enlouquecer um pouco mais.
Além desses fatos corriqueiros por aqui, tem outra coisa que está na nossa cara o tempo inteiro por aqui. Comida. Junkie food. Para todos os lugares que olhamos tem alguma barraquinha vendendo alguma coisa que engorda pelo simples fato de direcionarmos nosso olhar a ela. É assustador e quase impossível permanecer na dieta.
No caminho para o metrô tem uma rua que já apelidei de corredor gastronômico do bairro. Ninguém tem noção de como fica o point na sexta-feira à noite. E o cheiro das iguarias, então?! Dá vontade de trazer meus amigos glutões como eu para apreciar as barraquinhas de batatas chips (feitas na hora), sanduíches para todos os gostos (todos bem engordurados), salgadinhos com refresco a R$1,00 (com um aspecto lindo, eu juro), cocadas, quebra-queixo, pizzas e mais todas as guloseimas que vocês puderem imaginar. Mas apenas as que engordam. E muito.
É realmente tãaao diferente da atmosfera fitness da zona sul que chega a ser engraçado. Diante de todos os Konis e Delírios Tropicais que encaro em meio às H. Stern Home da Garcia D'Ávila e todas aquelas pessoas e comidas de plástico, devo confessar que se não fossem as balas (as que matam), me sentiria muito mais a vontade na grande favela que se tornou o subúrbio carioca.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 13h02
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Manu - 30
FÉ
Por Manuela Musitano
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Antes apenas um ser bestial aos olhos do mundo, hoje um ateu dos céus que busca conforto e afeto pelos olhos do sacristão.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Porque se o mundo possui idiotas, um dia eles subirão à redenção garantida por suas bestialidades fugazes de pobres homens.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Se a hóstia é consagrada, foi porque alguém acreditou naquilo e espalhou sua crença ao mundo, que necessita cada vez mais de esperança.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Agora na fila de cumprimentos finais ao sacerdote, pensando em chegar em casa e bater na mulher, já que nada de bom foi-lhe apresentado hoje na Homilia.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que foi até lá pedir que seu time seja campeão ou que seja apenas retirado da segunda divisão.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Por não rezar diariamente e não cumprir seu dever de ovelha de Deus, acha que sofreu um castigo não passando no concurso que se empenhou tanto.
Reza o home pequenino que se engrandece na fé. Que reza diariamente, que segue seus deveres de ovelha e que já comprou seu pedacinho no céu.
Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que na verdade nem está rezando mesmo, não acredita nessa tradição toda, mas que é muito melhor que muita gente que só vai lá pedir.
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 10h42
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Mi - 42
PÍLULAS DO SALÃO DO LIVRO DO MAM
Por Michele Paiva
Nas duas últimas semanas fiquei absolutamente envolvida com o salão do livro infanto-juvenil, no MAM. Do tipo de sair de lá e dormir antes das 21h, porque me encontrava totalmente sem energia para nada...
Além de cansativo pacas, me diverti deveras... Tanto com meus colegas de trabalho quanto com as pérolas que ouvia (e interagia) das crianças.
- De um menino de aproximadamente 5 anos, lendo em voz alta no meu estande:
Eu - Nossa, João (seu nome estava num crachá, pendurado na camiseta da escola), você lê muito bem.
João - Eu sei, tia, minha mãe me ajuda.
E - E ela deve ficar orgulhosa...Agora é você quem conta historinhas para ela dormir, né?!
J - Não, tia, minha mãe trabalha de noite, bem de noite, depois do Jornal da Globo. Minha mãe é massagista, tia.
- Um menino loirinho foi reclamar, choramingando, com o amiguinho que outro colega o tinha empurrado e ele deu um soco na barriga para se defender. Todos por volta de 4 anos de idade.
Menino loirinho - Snif, snif, bati mesmo nele...
Amiguinho - Cara, você está errado também. Os dois são culpados. Olha pra mim, olha nos meus olhos e admite que você também errou. (SIC)
Menino loirinho - Não...snif...
Amiguinho - Vai lá conversar com ele. Vocês têm de superar essa briga. (SIC)
- Uma garotinha (de uns 6 anos) chegou para meu colega de estande e se apresentou:
- Oi, tio, sou a Ana Luíza.
E o Léo, muito simpático:
- Oi, Ana Luíza, meu nome é Leonardo.
- Então, tchau. Prazer, Péo. (SIC)
- Outra mais velha e mais assanhada, no alto dos seus 8 anos:
- Ai, tio, com todo o respeito, mas o senhor é um gatinho, hein?!
- É, você também é muito bonitinha, mas vai logo que sua professora está chamando, vai!
- Um menininho se soltou da mãe, correndo livre nos corredores até me ver, parar e dizer em tom professoral:
- As lagartas entram no casulo e viram borboletas depois, sabia?!
Não deu nem tempo de responder ou travar um diálogo. Ele já havia cumprido sua missão de me informar sobre assunto tão importante. Continuou correndo, tendo sua mãe enlouquecida atrás.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 11h19
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Mi - 41
Por Michele Paiva
Quando eu era adolescente dizia que o dia que meu peito caísse eu morreria. Bem, estou viva ainda. Eu sempre fui de dizer muitas asneiras.
Já disse que nunca faria coisas que hoje vivo fazendo.
E sempre coloquei minha felicidade dependente de alguma coisa. E nunca me dei bem com isso. Mas é difícil aprender que a felicidade é um estado absolutamente egoísta e que só depende da gente, enfim...
Hoje trabalho com adolescentes e tenho vontade de trucidar a maioria. Está certo que adoro muitos deles, mas tem uns que dá vontade de matar mesmo. E nem adianta eu me esforçar para lembrar de mim nesta idade, porque não rola.
Como eles se sentem tão superiores - quando estão em grupo, obviamente - e têm tanta certeza de tudo e são tão pedantes...Meu Deus, só rezo para que eles, um dia, se achem ridículos como eu o faço hoje, porque o pior será eles continuarem assim para sempre - idiotas.
Mas me desliguei dos aborrecentes essa semana. Os fofos ficaram muito sentidos, deu até vontade de chorar, mas olha que legal, eles me conheceram! E a gente conversou sobre tantos assuntos batidos, mas com tanta verdade, sem eles acharem que ia pegar mal, que acho que alguma coisa valeu a pena. Para mim, principalmente.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 10h32
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Mi - 40
Por Michele Paiva
Esse texto era para expurgar toda a tristeza que ando sentindo. A tristeza que cheguei a pensar que estava ressaltada pela TPM durante a morte inesperada de alguém querido e um tanto distante, a morte brutal que ele escolheu, mas não...
Nunca lidei bem com a morte e invejo muito quem consegue seguir em frente de forma simples e por isso fico por muito tempo com a sensibilidade à flor da pele, o choro sempre iminente e começo a repensar tanta coisa.
Eu nem tenho sobre o que escrever concretamente, era só para ajudar minha cabeça, o aperto no meu peito - que já melhorou muito - os pensamentos errados, a saudade quase táctil dos meus amigos, dos meus queridos. Mas só Chronos tem poder nessas horas e tenho rezado muito para ele continuar ao meu lado e rezado para outros deuses que ajudem a quem partiu.
É incrível o estrago que uma ausência pode fazer.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 13h12
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Manu - 29
FESTA DE ANIVERSÁRIO
Por Manuela Musitano
Cara, que mania de comemorar aniversário que ela tem. Já não sabe que não tem dinheiro pra fazer essas coisas? Aí o que que acontece? Faz aquela despesa, fica abril, maio e junho pagando pratinho de plástico e colher de sobremesa e aquele bolo cafona da Moranguinho que ela pede há não sei quantos anos, sendo que a menina já vai fazer 18...
Ela ainda não aprendeu? Meu Deus do céu! Aí a gente é obrigada a levar um presente bom pra criança porque a festa é boca livre e eu fico me perguntando: não é melhor dá um dinheiro pra ajudar a pagar as parcelas?
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 11h03
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Manu - 28
Por Manuela Musitano
Eu não acho justo ter acontecido isso tudo com a gente, mas o que que eu vou fazer, não é?! Eu sei que você vai dizer que eu fiz as minhas escolhas e que a vida é feita de opções, não é sempre isso que você fala?
Mas será que eu escolhi em alguma malcriação com você ir morar naquele colégio interno chatérrimo em Brasília? Quando você foi transferida pra lá, eu fui numa boa. Fiz a minha mala, embarquei junto com meu irmão e nem briguei com ele na viagem. Isso provavelmente ele nem te contou, né?! Normal.
Será que eu mereci ir morar longe de vocês porque eu reclamei do calor quando nós fomos à Disney em dezembro e você disse pra gente só levar roupa de frio e não quis comprar uma camiseta dos parques pra gente? Lembrando que eu nunca pedi pra ir pra esse lugar.
Aí você me manda para esse colégio interno, viaja nos finais de semana com o seu novo marido e me expulsa de casa porque eu transei com o professor de Biologia quando eu fiquei detida no colégio por mal comportamento? E ainda acha ruim eu escolher ir morar com o pai do meu irmão no Rio em vez de ir morar com o meu pai em São Paulo...
Você preferia que eu continuasse a encarar a cara de puto do meu pai ao ter que ir ao colégio com você para assinar a minha expulsão ou preferia que eu fosse morar num lugar que eu sempre quis morar, com um pai que não era o meu, mas me tratava muito melhor que todo mundo que assina o sobrenome Vargas Limeira?
Eu fiz minha escolha e sei que te prometi voltar pra casa depois da formatura na faculdade, mas eu também quero que você saiba que tem muito tempo que a gente não vive junto e que vai ser difícil pras duas agüentarem isso, mas eu te prometi e estou embalando a última caixa.
Não precisa me buscar no aeroporto, não, deixa que eu me viro, como eu sempre fiz e acho ótimo. Tomara que você continue se orgulhando de mim como eu de você, mesmo que a gente tenha que deixar algumas coisas guardadas bem lá no fundo do baú...
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 08h44
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Mi - 39
Sou feia, mas tô na moda!
Por Michele Paiva
Eu sou feia. Sempre fui. E isso sempre foi problema, obviamente. Só deixa de ser problema quando você se casa e se enche de filhos, porque depois disso você perde a identidade e a importância em nossa sociedade da futilidade. Meu primeiro beijo saiu tarde por causa disso, minha primeira trepada também e meu primeiro amor não chegou até hoje.
Tenho um nível de inteligência bastante razoável, sou considerada uma intelectual, mas o que me deixaria feliz mesmo era um corpo de gostosona, cabelão loiro e liso e cérebro menor que o de um amendoim, porque a ignorância, meu bem, é muito melhor que prozac.
Mas há pouco descobri uma coisa que pode parecer muito bizarra para as pessoas em geral, mas para mim foi o ápice de minha vida social: micaretas.
Para quem não sabe - sim, porque eu não sabia - micareta é o nome do carnaval fora de época que acontece pelo Brasil. E também o que rege minha vida, porque não marco compromisso algum antes de consultar o calendário dos desbundes carnavalescos onde pretendo ir. E vou quase a todos.
Mas o que interessa mesmo nesses trios elétricos que sigo são as apostas que os rapazes freqüentadores tornaram moda: apostas de quem "pega" mais mulher feia. Não sei o que eles ganham - devem achar que garantem seu espaço no céu - mas o que importa é que eu me divirto... Eles acham que estão usando a gente e somos nós - falo por todas as feias que caem nessa brincadeira - que nos divertimos de verdade. Até porque alguém já viu os saradões que freqüentam esses antros de perdição? Uns deuses. Sem nada na cabeça, o que me agrada ainda mais.
Outro dia eu vi um desses semi-deuses dizendo a um amigo do Olimpo que tava com nojo... Que ia comprar um anti-séptico bucal quando estivesse voltando para a pousada, porque naquele dia ele tinha ultrapassado todos os limites da feiúra feminina e eu fiquei me perguntando o porquê de ainda não terem inventado Listerine para o cérebro...
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 21h12
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Mi - 38
IRONIA
Por Michele Paiva
Era piloto de helicópteros e conhecia como ninguém a cidade vista lá de cima. Quando chegava aqui embaixo, não conseguia acertar um caminho.
Demorou muito a fazer um plano de saúde. Quando conseguiu dinheiro, morreu antes do agente de seguros tocar sua campainha.
Era amigo de todo mundo, mas não recebia um telefonema em seu aniversário.
Tinha uma dor de dente terrível. Não quis conversa, arrancou tudo. E a dor só piorou.
Seu namorado vinha de longe e ela mentia para a mãe, dizendo que ele dormiria na sala. A casa incendiou e os corpos carbonizaram abraçadinhos no quarto.
Não havia quase lixeiras nas ruas do subúrbio. Na zona sul, eram depredadas a cada poste.
Ela teve tempo apenas de ler o título do tópico na apostila. Caiu uma questão na prova valendo muitos pontos justamente sobre ele.
Tinha uma queda por homens muito mais novos. Até que sua amiga a denunciou por não querer ser sua sogra.
Detestava crianças. Teve três filhos lindos e bem educados.
Cuidava muito para não ser chata e inconveniente e nem sonhava que era isso que falavam dela pelas costas.
Amava muito sua garota que o amava, mas era tão burro, que não soube lidar com isso e terminou tudo.
Pegava todas as lembrancinhas de festa e, em casa, jogava todas fora.
Era um aluno brilhante e invejado na infância. Outro dia apareceu no jornal local com uma tarja preta nos olhos, porque virou menino de rua.
Amava escrever, mas descobriram seus segredos mais profundos, lendo seus escritos.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 11h58
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Manu - 27
LURDINHA SAMBA FÁCIL
Por Manuela Musitano
Geralmente pegava o metrô na mesma hora das meninas da whiskeria da rua do Rosário, que vinham ensaiando a Pole Dance nos queijos dos vagões. Não era a primeira vez que ia trabalhar virada. Na noite passada precisou ir para a quadra se apresentar como rainha da bateria da sua comunidade. Essa era a rotina de Lurdinha Samba-fácil sempre perto do Carnaval. Se cantaram alguma vez que o morro foi feito de samba, esqueceram de dizer que isso não sustentava os filhos que Lurdinha teve com o namorado. Orlando Oscar, um motoboy metido a besta, conhecido como Ó ao quadrado tinha engravidado sua preta quando ainda nem tinha carteira assinada.
Em noite de ensaio ninguém podia dormir no ponto. A Escola tem por tradição se reunir no meio da semana para evitar a invasão elitista que ocorre quando seus batuques são realizados nos finais de semana; com o objetivo de angariar fundos para pagar pelo menos os seguranças que ficam na porta para não ter confusão. Lurdinha Samba-Fácil tinha sido coroada há pouco na agremiação. Após a moda das artistas novelísticas assumirem a avenida, a Escola tinha decidido manter a dinastia das Sambas-fácil, fazendo assim uma homenagem à mãe de Lurdinha, a Berê Samba-fácil, que passou todo seu rebolado geneticamente para a filha e respectivamente à comunidade.
Lurdinha levantava todo dia às 5:30 para assumir o plantão da recepcionista do prédio onde funcionava o Jornal dos Jornais. Dali, saía correndo para pegar Lucas e Breno no horário extensivo da escola e os levava para almoçar no botequim do Pereira, onde ficava sabendo das últimas novidades do morro e de seu marido O². Mais dia menos dia, ela ia se cansar daquele homem, ia arranjar um emprego melhor, ou que apenas lhe desse um dinheiro melhor, e se mudaria do lugar onde tinha sido criada e criado seus filhos. Mas por enquanto, sua única preocupação era conservar os músculos inferiores que lhe garantiriam um chocalhar perfeito para conquistar o Estandarte de Ouro como rainha da bateria deste ano.
Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 13h19
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Mi - 37
Crônica
Por MIchele Paiva
Eu perdi o direito de achar alguém escroto. Perdi, porque tive a infelicidade de namorar um escroto e o azar de gostar dele. Logo, ninguém mais me concede o direito de achar outro homem escroto.
Engraçado, porque ninguém, na lógica universal, teria tal direito, porque o que mais existe no mundo é gente escrota. Se não for, em algum momento esteve escroto, então...
Mas o fato é que foi em mim que recaiu a maldição de não poder julgar nenhuma atitude babaca ou dar conselhos por atitudes imbecis de alguém. Acho que me retaliariam se eu dissesse que um idiota diagnosticado é um idiota.
Vou fazer o jogo do contente e achar ótimo, pois não vou precisar dar mais minha opinião para ninguém ou, se mesmo assim pedirem, vou ter uma resposta padrão, do tipo: – É assim, mesmo... Respostas lacônicas e frases feitas tomarão conta de meu cérebro enquanto ele fervilha de xingamentos e depreciações em geral.
Pronto! Tudo tem seu lado positivo.
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 17h57
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Mi - 36
CRÔNICA
Por Michele Paiva
Ontem eu li uma coisa e já estou pondo em prática. Eu não faço isso sempre, mas como me identifiquei muito com a frase-coisa em questão: "Nunca recusar um frila", para quem, basicamente, vive de freelas. Meu caso.
E hoje estou aqui, cobrindo férias de uma amiga, numa agência de publicidade, revisando as dúvidas de Língua Portuguesa que você, por serem tão banais, nunca julgou que um ser humano adulto e graduado na área de humanas pudesse ter.
Todo mundo se conhece, o clima é mega agradável e eu simplesmente não me encaixo. Para piorar, eu não tenho lugar certo, me colocaram na frente de uma máquina que não funciona e eu já terminei o Cuenca que está em minha bolsa. Arrumo coisas para fazer, enquanto cinco pessoas trabalham freneticamente ao meu lado.
Muito desagradável. Muito!
Torço muito para alguém sair mais cedo, mas já ouvi dizerem, com pesar, que vão precisar sair às 19:00... Como saio às 19:30, não me divertirei muito com uma máquina que funcione. Uma pena!
Sigo fazendo cara de paisagem, limpando minha carteira e implorando para que Chronos fique ao meu lado.
PS: Ah, a cadeira que me coube também é uma BOSTA!
Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 11h53
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