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MI - 47

Love is in the air
Por Michele Paiva

Ele me cantava o tempo inteiro, incansavelmente. No início eu até entendia, pois era carne nova no pedaço, nova mesmo, bem ao contrário das outras colegas da firma.

Levava tudo muito bem, achava aquele flerte idoso dele até meio engraçado, triste também, afinal o cara era casado, cheio de filhos, barrigudo e careca. Tinha pena, porque ele nunca iria conseguir nada comigo ou com qualquer outra contemporânea minha. Nem por dinheiro, já que ele não devia ter muito.

Só que um dia ele se declarou, com todas as letras. Eu pedi desculpas se me deixei ser mal interpretada, mas nunca teria nada com ele. Sua cara envelheceu mais uns 15 anos. Me deu mais pena. Usei então a desculpa de que não me envolvia com homens casados, pois a verdade ali não caberia; não trabalhando no mesmo ambiente. (Eu até gostaria de não me envolver com homens casados, esse era meu desejo, porém nos últimos dois anos tinha vestido a máscara da outra com muita propriedade e certo pesar.)

Ele aceitou resignado e fomos seguindo. Achei que ele se envergonharia e nunca mais tocaríamos no assunto, mas ele foi persistente. Não sabia mais o que fazer, pois falar com alguém daquele antro de decrepitude só iria suscitar mais inveja de meu recém completo quarto de século, além de expor um cara que tinha uma posição muito mais confortável que a minha dentro da empresa.

Tentei ser gentil, não adiantou; tentei me fazer de desentendida, não adiantou; tentei ser ausente, não adiantou. Fui direta e clara como nunca consigo ser: "olha, meu amigo, você já sabe o que penso sobre o que você me declarou; estamos num ambiente de trabalho, não me faça mais constrangida do que já me sinto nessa situação". Odeio essa objetividade que os homens precisam. Decididamente sutileza não é uma linguagem masculina. Achei que tinha resolvido.

Fugi dele o quanto pude. Até uma hora atrás, quando fui agarrada no banheiro feminino e tive o melhor sexo da minha vida.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 10h15
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Manu - 34

Tardes de segunda
Por Manuela Musitano

Eu bem que gostaria de ter conversas francas com a minha mãe, do tipo: por que você achou que o colégio interno seria a melhor opção?

Nossa vida sempre foi bem atribulada. Mas acredito que seja normal, quando você tem uma mãe que é jornalista política, bem sucedida e que gosta daquilo que faz. Eu e meu irmão sempre fomos atrás dela e atrás de onde a empresa líder de audiência mandava ela. Era mais fácil ligar a televisão e ver a mulher do que encontrar com ela na hora do jantar, por exemplo. Principalmente depois da matrícula no colégio interno.

Acho importante dizer que eu não sou filha do mesmo pai que o meu irmão mais velho e que minha mãe também não é casada com ele. Quando eu tinha ainda 7 anos e meu irmão 15, ela se casava pela terceira vez com um estudioso de História. Ok, depois de um hippie comunista e de um executivo, ela resolveu casar com esse cidadão. Não que ele fosse um pai ruim pra gente, mas quando eu fui expulsa do colégio interno e tive que escolher entre morar com minha vó ou com meu pai, fugi do ônibus na rodoviária e fui pro Rio de Janeiro atrás do pai hippie do meu irmão. Que diga-se de passagem também não me acolheu tão bem assim, repetindo a frase constantemente: eu prometi que nunca mais falava com a sua mãe na minha vida!

Eu gostaria de ter sentado com minha mãe um dia e conversado com ela e saber como era ela sem o papel de mãe que ela tanto renegou. Pra mim, porque do meu irmão ela é mãe até hoje. Devo comunicá-los que não falo com ela desde minhas últimas férias de verão, quando ainda era obrigada a conviver com ela em curtos períodos de tempo. Ah, sim, com meu pai biológico também não falo, devido à minha decisão de ir para a casa do hippie. Ok, devo avisar também que meu irmão não fala com o pai hippie, porque o hippie resolveu ser mais meu pai do que dele. Se eu ainda falasse com meus pais, eu gostaria que meu pai ou minha mãe, ou os dois, já que ambos tinham a mesmíssima responsabilidade, houvessem refletido sobre o que estavam fazendo quando decidiram me conceber. Porque na boa, ela achou que eu com 16 anos não iria transar com o professor de Biologia durante a minha suspensão do colégio interno? E ainda me culpou de ter sido expulsa e eu agradecer a ela ser responsável pela não publicação da notícia nos maiores jornais de Brasília...

Eu tava cagando, pedindo pelo amor de Deus para alguém me tirar daquele colégio e daquele lugar. Pedindo pelo amor de Deus para um hippie carioca me acolher no seu apartamento de dois quartos de frente pra praia de Ipanema. Além de tudo, meu pai tem que entender que eu fui atrás de um pai que ele nunca pôde ter sido, nem pra mim, nem para os outros filhos que ele teve antes e depois.

Eu só gostaria que as pessoas entendessem que a vida é feita de opções e que não podemos julgar e prolongar o sofrimento de alguém que escolheu o próprio destino com seus pouco mais de 16 anos. Não que eu quisesse que eles me perdoassem, porque eu não acho que tenha o que perdoar, mas o mínimo de compreensão e uma resposta de vez em quando na minha caixa de entrada...

 

 



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 13h08
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Manu - 33

De novo, again and again
Por Manuela Musitano

Meu Deus, é quase um dejá-vu. Sentada aqui nesse ônibus, no mesmo engarrafamento de sempre no aterro, escutando Sandy e Jr no Ipod. Não agüento mais esse Turu turu turu no meu ouvido. O problema é que também não aguento mais os cds do NX Zero, do Charlie Brown e aquele novo da Vanessa da Mata.

A vida é sempre igual pra você também? Não, não tô falando de rotina, porque isso até algumas pessoas gostam, mas da sua vida mudar somente de ciclo em ciclo? Comigo é muito assim e principalmente amorosamente. Putz, mas é muito assim mesmo. Arranjo alguém só pra transar, termino, dois dias depois me arranjam um namoro. Não que eu ache isso ruim, pelo contrário, até quando o namoro termina, eu já quero achar alguém pra transar pra arranjar outro namorado. É tão bom namorar, eu adoro. Esperar o fim de semana chegar pra gente ter realmente o que fazer com a pessoa q a gente realmente gosta, sem sair pra ficar em baladinha com aqueles seus amigos de sempre. E cada vez que o tempo passa, é mais assim, da gente não querer ver as pessoas de gente, nos mesmos lugares que você sabe que elas vão estar, porque elas nunca têm dinheiro, mas também não podem passar um fim de semana em casa, comendo um pizza, vendo novela.

Enfim, as pessoas são complicadas e esse trânsito que não anda. Você fica olhando pros carros do lado e vendo o que as pessoas estão fazendo? Nossa, é minha distração. Tentar adivinhar o que está se passando ali dentro, nossa, que engraçado.

Tô doida pra chegar logo no trabalho e pra sair logo também. Ás vezes tenho a impressão que a vida se resumiu a isso: trabalho-dinheiro-trabalho. Isso quando o dinheiro aparece, porque está cada vez mais difícil guardar pra viagem à França. Não posso perder mais tempo, preciso descer desse ônibus e viver. Moço pode parar aqui mesmo que eu vou ficar aqui! Ah, mas não em frente a essa poça d'água... Pode seguir um pouco mais adiante...

 



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 19h41
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Mi - 47

A maldição do bolo
Por Michele Paiva

Para David

Ela era uma mulher singular - até porque é uma invenção de idiotas dizer que mulher é tudo igual -, diria Almodóvar. Nós podemos ter alguma coisa afim, mas dizer que somos iguais beira a ignorância.

Célia não devia ter 40 anos ainda; loira, queimada de sol e com uma magreza anoréxica, não comia o dia inteiro, era extremamente irritada com tudo e todos e vivia imprimindo receitas dos mais variados sites gastronômicos, já que cozinhava muito bem e conquistou seu noivo pelo estômago. A gente achava que ela não agüentava e comia o que preparava, mas depois devia vomitar tudo para manter aquela esqualidez horrenda.

Seu noivado com César já durava doze anos e só não casaram ainda porque sua mãezinha estava à beira da morte e só restava isso acontecer para dar-se o enlace matrimonial. Um tanto mórbido e outro tanto prático.

Quando eles resolveram conversar a sério sobre a possibilidade do casamento ocorrer, algo terrível aconteceu. O jantar que ela preparou foi incrível, mas o bolo solou, o que fez ela, aos prantos, terminar o noivado, porque o sinal foi muito claro: nem com fermento aquilo iria crescer. Pena que ela só percebeu mais de uma década depois.

 



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 15h56
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Mi - 46

Por Michele Paiva

Revolta desencadeada após leitura de uma matéria jornalística sobre a "originalidade" do filme nacional "Entre lençóis" por Daniela Murat

Engraçado... Não tenho nada a ver com a indústria do cinema mas confesso que a sensação que me invadiu no momento em que assisti ao trailer, foi a raiva. Achei a falta de criatividade tão imensa que pra mim chega a ser absurda a idéia de filmarem essa merda. Acho que fiquei com raiva porque ao me identificar, ou melhor, não me identificar com o diretor/produtor/roteirista, sei lá que porra de profissionais, percebi que jamais faria uma imitação de leve quanto mais uma xerox. Era mais fácil eu mudar meu filme se eu achasse que ele talvez pudesse parecer remotamente semelhante com algum existente... Acho a originalidade fantástica!

E o cara ainda tem a vulgaridade de dizer que já tinha feito outro igual antes desse do Brasil, e como se não bastasse ele ainda vai continuar essa baixaria pelo mundo!!! Eu não acredito! Esse cara só sabe fazer isso na vida? Ou é só pra me irritar?! Se eu pego esse infeliz na rua acho que soco a cara dele.

Caraca, que revolta! Será que eu penso isso tudo mesmo ou é só porque tô com fome?

 



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 12h41
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Mi - 45

Por Michele Paiva

 

Outro dia, conversando com um colega de trabalho, desses que a gente não explica a empatia imediata, tocamos num assunto que me deu um nó na garganta que está durando até hoje... Ele me disse que queria acabar o casamento, me falou de uma nova paixão e tudo - paixão intocada por causa dos valores que ele ainda mantinha -, mas que por conta de grana e, principalmente, do filhinho ia continuar e abrir mão de sua felicidade.

O nó na garganta não terminou porque acabei percebendo tanta gente assim, tanta gente que não entendeu ainda que a gente só tem uma vida e que precisamos ser felizes nela. E temos muito pouco tempo para isso.

Não, não vou começar com papinho auto-ajuda (espero que vocês ainda lembrem quem sou apesar de tanto tempo sem postar), mas não me saiu da cabeça como deve ser triste levar uma vida a dois desse jeito. Triste mesmo. Porque duvido que o outro seja feliz também e aí é muita tristeza junta. Muita. Que deve sufocar o filho poupado e qualquer ser humano que passe por ai... Acho que o síndico e o porteiro devem comentar que está difícil passar pelo apartamento do Fulano do quinto andar, porque a tristeza ali é tanta que anda saindo por baixo da porta, por qualquer fresta que a caixa de morar tenha.

Queria tanto que todo mundo tivesse maior responsabilidade por si mesmo e não pelos outros. Até porque dor passa. Todo mundo sabe disso. E tenho achado a vida tão morna ultimamente. Queria incendiar tudo.

 



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 15h15
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Manu - 32

Minha vida com Ludmila 2

Por Manuela Musitano

Ludmila agora resolveu matar as aulas da faculdade. Semana passada eu desconfio que ela só foi na aula de quinta-feira, porque tinha combinado de ir jantar no restaurante japonês com a Jussara, uma amiga dela desde os tempos de antes da faculdade.

E lá foi Ludmila matar o segundo tempo de aula de quinta-feira, a primeira aula que ela tinha ido na semana.

Ludmila agora está com mania também de levar o namorado nas nossas aulas de Globalização. Quando questionado, ele me disse que não tinha gostado muito da aula, mas que continuaria indo porque não tinha mais nada pra fazer naquele horário. Questionei então à Ludmila, se aquilo era normal, porque sinceramente, se eu não tivesse nada pra fazer naquele horário, iria pra casa ver a minha televisão. Ludmila disse que aquilo era normal, que ele era muito NERD. Que quando eles moraram no EUA, ele ia a biblioteca consultar livros comunistas e ela teve muito medo de ser expulsa da terra de Mr. Mouse por conta disso.

Hoje eu disse a ela que amanhã trabalharei em casa, como ela fez certo dia já relatado aqui por mim. Ela disse então que eu estava muito competitiva, só que mais competitiva é ela, que usa a minha frase-tema de quando quero sacaneá-la. Combinei também de ir com ela a Itaipava fazer umas comprinhas, pois estou bem precisada e sem grana, apesar de ter pago 49,90 numa blusa linda na Renner e mais 30 e poucos numa calcinha e num sutiã que não vou usar com ninguém tão cedo. Não que eu esteja em greve de sexo de novo, mas é que eu ando bem assexuada, com o espírito elevado, sem pensar muito nessas coisas mundanas.

Já volto, vou responder à Ludmila que tá me chamando aqui no MSN e eu já sei, que se eu demoro mais um pouco a responder, ela fica me sacaneando, perguntando se eu estou trabalhando. Que pergunta retórica, como se ela já não soubesse...



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 20h15
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Mi - 44

Se não gostou, me pega!

Por Michele Paiva

Eu sou mutissíssimo possessiva. Muito. E principalmente com coisas que não são minhas.

Eu sei que sou louca, mas sou e pronto. Não preciso fazer terapia por conta disso.

Odiava quando estava na faculdade e havia algum evento externo. Tipo, enchia MINHA faculdade de gente que não era de lá...Isso me dava uma raivinha escrota.

Odeio ver gente com a mesma roupa que eu, amando os mesmos autores que amo, se achando íntima de coisas, lugares, personalidades que são minhas.

Fico imaginando os habitantes de cidades como Paris, Roma e etc...Cara, todo o mundo quer visitar e a cidade está cheia o tempo inteiro. Deve ser terrível. Eu moro numa cidade que é alvo do turismo mundial também, mas nada comparável à Europa.E nem é xenofobia, não. É "possessividade" mesmo.

Mas nada se compara às pessoas que enlouquecem ao meu lado quando meu cantor favorito está em cena. Principalmente quando eu as conheço.

Já não faço a linha tiete histérica, porque além de ser patético, não vou dar esse mole, mas ter alguém do lado assim é triste. E revoltante.

Por mim, ninguém nem gostava dele, e o show seria só meu, mas acho que isso não ia ser bom para sua carreira, então abro precedentes. Mas é muito ruim, porque tenho vontade de matar a pessoa, de verdade. Juro, é a única hora em que meu instinto assassino vem à tona de verdade, me dá medo até. Sinto todo o meu sangue ir para o meu rosto, minha garganta se prepara para um grito alucinante e minhas mãos procuram um objeto perfuro-cortante, mas eu tento abstrair e segurar toda esta raiva para mim. Às vezes, eu consigo.

É amor. Eu sou assim e não tenho grandes problemas com isso; sem culpa alguma pela insanidade revelada . Se não gostou, me pega.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 03h07
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Manu - 31

Minha vida com Ludmila

Por Manuela Musitano

Ontem Ludmila foi à aula apenas para pegar documentos com a colega que trabalha na Caixa Econômica e estava adiantando uma consulta que Ludmila precisava fazer para tirar sua carteira de trabalho. Aliás, isto está um parto, ela tenta tirar outra carteira desde o início do mês, mas como trabalha em Botafogo e quer ir no posto da Tijuca, por acreditar que lá seja mais fácil de tirar, acaba não indo nunca.

Ela chegou já no fim do intervalo e ficamos conversando durante o segundo tempo da aula da Lia. Nós já havíamos conversado a tarde inteira, no MSN, como de costume, mas sempre temos papo para mais uma meia hora ou duas. Teria sido mais inteligente de minha parte se eu tivesse pego meu material e ido embora logo com ela, do que as duas terem ficado sentadas esperando a aula acabar para eu entrar e pegar minhas coisas. Gabriela não foi à aula.

Entre vários assuntos, incluindo ela me ensinar a mexer num compartilhador de arquivos, ela me contou que tinham tido uma vez uma empregada alcoólatra, que certa vez teve um surto, porque Ludmila possuía um boneco de borracha que parecia um bebê recém nascido, com o qual a empregada levava sustos atrás do outro. Neste dia, Ludmila ficou balançando o boneco na janela que dava para o quarto da empregada e a mulher desceu as escadas do prédio de uma vez só, sem nem sequer voltar para pegar o dinheiro que lhe cabia.

Ludmila disse, que certa vez ela fez um chá e colocou uma dose de álcool de limpeza. Brinquei dizendo que ela poderia colocar álcool de cereais. Nesta hora estávamos passando pela porta da sala de aula de gastronomia, já indo embora pra casa. Ela me contou de outras histórias de empregadas suas e me pareceu que eles nunca tiveram muita sorte com empregadas.

Escuto meu cd da Tereza Cristina e aguardo retorno de Ludmila no MSN, já que hoje ela está trabalhando em casa e não pode deixar no status "em reunião", como ela faz quando quer se livrar de mim...



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 20h28
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Mi - 43

Entre balas e frituras

Por Michele Paiva

Eu não tenho escrito com tanta freqüência aqui, sei disso, mea culpa. Mas outro dia tentei escrever sobre um assunto que me aflige deveras ultimamente: dieta. A dificuldade de fazê-la, de mantê-la e etc. O texto ficou uma merda, mas serviu para eu me dar conta de certas coisas.

Estou num emprego novo. Apesar de eu já estar aqui há 3 semanas e o trabalho de verdade não ter começado de vez, tá bem legal. É uma empresa gigante e parecem ser bem certinhos nos quesitos práticos de pagamentos e coisas que o valham, porém agora trabalho numa área de risco. Super de risco, eu diria.

Meu chefe tinha falado uma coisa que não tinha conseguido captar - e fingi que entendi, como faço com milhares de outras coisas que não ouço direito - sobre parecer um filme sendo produzido aos nossos olhos quando coisas bizarras acontecem aqui na frente do prédio. Até que um dia... Indo para casa, de ônibus, encaro uma ação cinematográfica de um assalto a um carro à mão armada e tudo. Um terror. Um medo danado e uma gritaria no ônibus de fazer a gente enlouquecer um pouco mais.

Além desses fatos corriqueiros por aqui, tem outra coisa que está na nossa cara o tempo inteiro por aqui. Comida. Junkie food. Para todos os lugares que olhamos tem alguma barraquinha vendendo alguma coisa que engorda pelo simples fato de direcionarmos nosso olhar a ela. É assustador e quase impossível permanecer na dieta.

No caminho para o metrô tem uma rua que já apelidei de corredor gastronômico do bairro. Ninguém tem noção de como fica o point na sexta-feira à noite. E o cheiro das iguarias, então?! Dá vontade de trazer meus amigos glutões como eu para apreciar as barraquinhas de batatas chips (feitas na hora), sanduíches para todos os gostos (todos bem engordurados), salgadinhos com refresco a R$1,00 (com um aspecto lindo, eu juro), cocadas, quebra-queixo, pizzas e mais todas as guloseimas que vocês puderem imaginar. Mas apenas as que engordam. E muito.

É realmente tãaao diferente da atmosfera fitness da zona sul que chega a ser engraçado. Diante de todos os Konis e Delírios Tropicais que encaro em meio às H. Stern Home da Garcia D'Ávila e todas aquelas pessoas e comidas de plástico, devo confessar que se não fossem as balas (as que matam), me sentiria muito mais a vontade na grande favela que se tornou o subúrbio carioca.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 13h02
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Manu - 30

Por Manuela Musitano

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Antes apenas um ser bestial aos olhos do mundo, hoje um ateu dos céus que busca conforto e afeto pelos olhos do sacristão.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Porque se o mundo possui idiotas, um dia eles subirão à redenção garantida por suas bestialidades fugazes de pobres homens.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Se a hóstia é consagrada, foi porque alguém acreditou naquilo e espalhou sua crença ao mundo, que necessita cada vez mais de esperança.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Agora na fila de cumprimentos finais ao sacerdote, pensando em chegar em casa e bater na mulher, já que nada de bom foi-lhe apresentado hoje na Homilia.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que foi até lá pedir que seu time seja campeão ou que seja apenas retirado da segunda divisão.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Por não rezar diariamente e não cumprir seu dever de ovelha de Deus, acha que sofreu um castigo não passando no concurso que se empenhou tanto.

Reza o home pequenino que se engrandece na fé. Que reza diariamente, que segue seus deveres de ovelha e que já comprou seu pedacinho no céu.

Reza o homem pequenino que se engrandece na fé. Que na verdade nem está rezando mesmo, não acredita nessa tradição toda, mas que é muito melhor que muita gente que só vai lá pedir.



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 10h42
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Mi - 42

PÍLULAS DO SALÃO DO LIVRO DO MAM

Por Michele Paiva

Nas duas últimas semanas fiquei absolutamente envolvida com o salão do livro infanto-juvenil, no MAM. Do tipo de sair de lá e dormir antes das 21h, porque me encontrava totalmente sem energia para nada...

Além de cansativo pacas, me diverti deveras... Tanto com meus colegas de trabalho quanto com as pérolas que ouvia (e interagia) das crianças.

- De um menino de aproximadamente 5 anos, lendo em voz alta no meu estande:

Eu - Nossa, João (seu nome estava num crachá, pendurado na camiseta da escola), você lê muito bem.

João - Eu sei, tia, minha mãe me ajuda.

E - E ela deve ficar orgulhosa...Agora é você quem conta historinhas para ela dormir, né?!

J - Não, tia, minha mãe trabalha de noite, bem de noite, depois do Jornal da Globo. Minha mãe é massagista, tia.

- Um menino loirinho foi reclamar, choramingando, com o amiguinho que outro colega o tinha empurrado e ele deu um soco na barriga para se defender. Todos por volta de 4 anos de idade.

Menino loirinho - Snif, snif, bati mesmo nele...

Amiguinho - Cara, você está errado também. Os dois são culpados. Olha pra mim, olha nos meus olhos e admite que você também errou. (SIC)

Menino loirinho - Não...snif...

Amiguinho - Vai lá conversar com ele. Vocês têm de superar essa briga. (SIC)

- Uma garotinha (de uns 6 anos) chegou para meu colega de estande e se apresentou:

- Oi, tio, sou a Ana Luíza.

E o Léo, muito simpático:

- Oi, Ana Luíza, meu nome é Leonardo.

- Então, tchau. Prazer, Péo. (SIC)

- Outra mais velha e mais assanhada, no alto dos seus 8 anos:

- Ai, tio, com todo o respeito, mas o senhor é um gatinho, hein?!

- É, você também é muito bonitinha, mas vai logo que sua professora está chamando, vai!

- Um menininho se soltou da mãe, correndo livre nos corredores até me ver, parar e dizer em tom professoral:

- As lagartas entram no casulo e viram borboletas depois, sabia?!

Não deu nem tempo de responder ou travar um diálogo. Ele já havia cumprido sua missão de me informar sobre assunto tão importante. Continuou correndo, tendo sua mãe enlouquecida atrás.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 11h19
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Mi - 41

Por Michele Paiva

Quando eu era adolescente dizia que o dia que meu peito caísse eu morreria. Bem, estou viva ainda.
 
Eu sempre fui de dizer muitas asneiras.

Já disse que nunca faria coisas que hoje vivo fazendo.

E sempre coloquei minha felicidade dependente de alguma coisa. E nunca me dei bem com isso. Mas é difícil aprender que a felicidade é um estado absolutamente egoísta e que só depende da gente, enfim...

Hoje trabalho com adolescentes e tenho vontade de trucidar a maioria. Está certo que adoro muitos deles, mas tem uns que dá vontade de matar mesmo. E nem adianta eu me esforçar para lembrar de mim nesta idade, porque não rola.

Como eles se sentem tão superiores - quando estão em grupo, obviamente - e têm tanta certeza de tudo e são tão pedantes...Meu Deus, só rezo para que eles, um dia, se achem ridículos como eu o faço hoje, porque o pior será eles continuarem assim para sempre - idiotas.

Mas me desliguei dos aborrecentes essa semana. Os fofos ficaram muito sentidos, deu até vontade de chorar, mas olha que legal, eles me conheceram! E a gente conversou sobre tantos assuntos batidos, mas com tanta verdade, sem eles acharem que ia pegar mal, que acho que alguma coisa valeu a pena. Para mim, principalmente.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 10h32
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Mi - 40

Por Michele Paiva

Esse texto era para expurgar toda a tristeza que ando sentindo. A tristeza que cheguei a pensar que estava ressaltada pela TPM durante a morte inesperada de alguém querido e um tanto distante, a morte brutal que ele escolheu, mas não...

Nunca lidei bem com a morte e invejo muito quem consegue seguir em frente de forma simples e por isso fico por muito tempo com a sensibilidade à flor da pele, o choro sempre iminente e começo a repensar tanta coisa.

Eu nem tenho sobre o que escrever concretamente, era só para ajudar minha cabeça, o aperto no meu peito - que já melhorou muito - os pensamentos errados, a saudade quase táctil dos meus amigos, dos meus queridos. Mas só Chronos tem poder nessas horas e tenho rezado muito para ele continuar ao meu lado e rezado para outros deuses que ajudem a quem partiu.

É incrível o estrago que uma ausência pode fazer.



Categoria: Michele
Escrito por Michele e Kleber às 13h12
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Manu - 29

FESTA DE ANIVERSÁRIO

Por Manuela Musitano

Cara, que mania de comemorar aniversário que ela tem. Já não sabe que não tem dinheiro pra fazer essas coisas? Aí o que que acontece? Faz aquela despesa, fica abril, maio e junho pagando pratinho de plástico e colher de sobremesa e aquele bolo cafona da Moranguinho que ela pede há não sei quantos anos, sendo que a menina já vai fazer 18...

Ela ainda não aprendeu? Meu Deus do céu! Aí a gente é obrigada a levar um presente bom pra criança porque a festa é boca livre e eu fico me perguntando: não é melhor dá um dinheiro pra ajudar a pagar as parcelas?



Categoria: Manuela
Escrito por Michele e Kleber às 11h03
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